ESPECIAL

Óptica de Batom

Mulheres representantes de óptica no Brasil ganham cada vez mais espaço e mostram profissionalismo ao carregar malas e tirar pedidos com uma pitada de charme a mais. Nesta edição, a View homenageia essas lutadoras e destaca algumas delas que agitam o Brasil.


Elas não fazem todo dia tudo sempre igual. O compositor e cantor Chico Buarque não escreveu a letra de Cotidiano para elas. Porque as mulheres protagonistas desta matéria têm o dia-a-dia movimentado por visitas e situações sempre distintas, muitas vezes acordam em cidades diferentes a cada manhã. São representantes comerciais do mundo da óptica e a sua rotina inclui carregar malas, talões de pedidos, viajar o país, dormir em hotéis... Tudo igual aos homens, a maioria nessa profissão, mas com uma diferença: antes de colocarem os pés na rua, não se esquecem de brincos, pulseiras, anéis e, é claro, do espelhinho de bolsa para retocar o batom.
Tudo bem, nem todas essas mulheres usam maquiagem.
Também nem todas acordam em hotéis para viajar o país. Mas têm em comum a feminilidade e a sensibilidade que imprimem ao trabalho de levar e vender novos produtos para as ópticas de todo o país, além de mostrar que carregar mostruários também é serviço para mulher.

Mundo de homens - O setor óptico nacional é predominantemente um mundinho masculino e, quando se trata do universo de representantes comerciais, então, nem se fala. Por isso, não é difícil imaginar que mulheres tenham alguns obstáculos a mais - que vão de diferenças físicas até o mais puro preconceito - para serem bem-sucedidas na carreira. Além dos catálogos e das malas pesados, elas lidam às vezes com a desconfiança dos clientes sobre sua competência e profissionalismo, pelo simples fato de terem nascido com o par de cromossomos XX (que determina, na genética, o sexo feminino) e não XY (que indica o masculino).
Mesmo assim, mulheres – e cada vez mais delas, diga-se de passagem – adotam o trabalho de caixeiro viajante que muitas vezes implica em ficar longe da família e dos filhos e continuar administrando o lar. No entanto, as compensações vêm aos montes: realização pessoal, independência financeira, reconhecimento profissional e novas amizades.

Toque feminino – Ser uma representante de óptica tem também vantagens. Basta pensar na ligação que o produto tem com moda e beleza e no quanto as mulheres têm mais intimidade com esse tema do que os homens. Elas são preocupadas e interessadas no que está em voga a cada estação, sabem identificar bem o perfil de cada griffe ou marca de óculos e explicar isso para o cliente.
"Nós curtimos mais moda. Somos mais sensíveis ao passar os detalhes de cada peça para o comprador da óptica. Consumimos mais, estamos sempre preocupadas com a combinação da roupa, da bolsa, do cabelo e dos óculos. Usamos mais peças diferentes, acabamos sendo mais vitrine para o produto e seu conceito, além de termos a habilidade de trabalhar melhor com detalhes. É uma vantagem e tanto", observa Rubia Mara Brilhante, que leva as marcas Sàfilo e Oxydo da Sàfilo para os ópticos do Rio Grande do Sul, estado com muitas mulheres representantes.
O sexo feminino também é conhecido por sua sensibilidade, algo até ligado ao instinto maternal e à capacidade de entender seus clientes – que às vezes agem como "filhos". De um modo geral, é mais fácil para elas conviverem com emoções e perceber o humor dos outros do que para eles. As mulheres conseguem entender e lidar com o comprador durão, aquele que está com problemas (pessoais ou na loja), o que requer mais atenção e carinho ou o que prefere ir direto ao ponto.
Tanto é que as opiniões favoráveis ao trabalho da mulher como representante aparecem em pontos importantes do mercado. Empresas com um percentual feminino relativamente alto nos quadros de representação apostam no profissionalismo e na determinação do sexo que por tantos séculos foi propalado como frágil. Luxottica e Igal são dois bons exemplos. "Quando é profissional, a mulher não brinca em serviço, até por ter de superar logo de cara o preconceito masculino", declara o diretor da Igal, Eliezer Lewin. Para o diretor da Luxottica, Carlos Guilheme, "a delicadeza, interesse e dedicação das mulheres garantem o bom desempenho como representante de óptica".
Já a gerente de um grupo de representantes da Optitex no nordeste, Elsa Borgononi, vai mais longe na predileção pelas mulheres. "A meta é que minha equipe no nordeste, que é uma região preconceituosa e mais resistente a mudanças, seja formada exclusivamente por mulheres", revela.


Pioneiras e "invasoras" – Aos olhos do mercado, as mulheres, princi-
palmente aquelas que começaram há 20 anos - como a paulistana Esther Galhardo e as gaúchas Carmen Wilmsen e Clarice Guerrierri (mais conhecida por Kaká) –, pagaram o preço que todas as pessoas de perfil pioneiro estão sujeitas a pagar: eram encaradas como invasoras de um espaço para o qual não haviam sido convidadas.
Entre as experiência acumuladas, contam que um dos momentos mais difíceis no início foi lidar com a hegemonia masculina nos hotéis. Normalmente cheios de representantes comerciais, dos mais diversos tipos de produtos, as mulheres eram - e ainda são - raras. O saguão ou os restaurantes, estão repletos de homens, muitos dos quais encaram o salto e o batom como alienígenas, aumentando a sensação de solidão que um trabalho como esse pode causar.
"O começo foi difícil, havia um pouco de rejeição. As pessoas achavam estranho, pois eu era jovem, divorciada e com dois filhos pequenos. Com o passar do tempo, perceberam que eu era profissional e conhecia bem meu produto e hoje sou muito querida entre os meus clientes, as suas esposas e os colegas de trabalho", conta Carmen, representante da Luxottica no Rio Grande do Sul, que iniciou sua vida de "caixeira-viajante" há 17 anos.
Até conseguirem esse respeito, porém, muitas tiveram de se virar para lidar com as dificuldades. Algumas, além de se livrar de assédios e comentários preconceituosos, precisaram controlar a raiva quando questionadas, por exemplo, se vendiam calcinhas e sutiãs, já que óculos não eram o tipo de produto que devia ser comercializado por mulheres.
Há o outro lado também: superadas as diferenças do princípio, elas se sentem respeitadas, queridas e protegidas por colegas e clientes: "Quem faz um trabalho sério é reconhecida. Me sinto bastante querida por todos. Uma vez sofri um acidente de carro e todos se solidarizaram. Representantes e clientes se ofereceram para ajudar no que fosse preciso enquanto eu não pudesse voltar ao trabalho", conta Kaká, 19 de estrada, o nome por trás da Rodenstock (Igal) no sul do país.

Lar, doce lar - Maridos e filhos também são questões delicadas para as representantes, já que naturalmente cabe à mulher cuidar da educação das crianças e da administração do lar. Mas a versatilidade feminina encontra um jeito para tudo: se for preciso viajar no fim de semana, leva consigo a família e aproveita o passeio. Lavar roupa ou ir ao supermercado, por exemplo, se tornam tarefas noturnas, graças à conveniência dos estabelecimentos 24 horas.
Helenice Correia, que começou como profissional de balcão e hoje é representante de lentes oftálmicas da Igal em São Paulo, compensa a ausência de casa com intensidade nos momentos em que ficam junto de seus filhos – um de 14 e outro de sete. "Seria mentira falar que meu trabalho não afeta em nada a relação com meus filhos, que muitas vezes me perguntam quando domingo vai chegar para ficarmos mais tempo juntos. Isso corta o coração, mas, sempre que posso, coloco-os para dormir e mantenho o tempo deles mais ocupado com cursos e esportes. É um preço que se paga para obter a realização profissional e garantir lugar no mercado de trabalho", comenta.
Mulheres que optaram por profissões e cargos que demandam muita dedicação, precisam, muitas vezes, do suporte de suas mães, sogras e empregadas para dar conta da jornada dupla. E ainda lidam com ciúmes de maridos e namorados e com a dificuldade de estabelecer novos relacionamentos amorosos, já que, em geral, os homens do "terceiro milênio" ainda não conseguem lidar muito bem com a ausência da "Amélia" – a mulher da música que se dedicava inteiramente ao marido e à casa.


Marta Vasconcelos, Goreti Pereira, Verônica Cachina, Elsa Borgononi e Ana Carolina dos Santos, da Optitex
O tal do dinheiro - Ser representante comercial - e aí tanto faz sexo, raça ou credo - implica em trabalhar como autônomo, sem salário fixo no final do mês, sem direito a décimo terceiro, férias garantidas ou licença-maternidade. E ainda a possibilidade de fazer o seu próprio salário, ser seu próprio chefe e ter muito mais disciplina para controlar todos os gastos tanto do dia-a-dia pessoal e como do profissional.
A maior diferença entre homens e mulheres no cotidiano profissional é que muitas delas contratam uma pessoa para ajudar a carregar as malas ou para dirigir, uma forma de facilitar o trabalho que é encarada por alguns como um mero luxo. E o salário desse ajudante, que às vezes tem carteira assinada e benefícios trabalhistas os quais as próprias representantes não desfrutam, também precisa ser incluído no orçamento das vendas do mês.
"Além das contas da casa e da educação dos filhos somos nós que pagamos gasolina, estacionamento, o telefone celular, cafezinho ou
almoço com o cliente, salário do ajudante e todos os custos do trabalho. Por isso, a conta é fácil: nos meses em que ganhamos bem, devemos guardar mais para fazer nosso décimo-terceiro", ensina Nilva Glebocki, boliviana que veio para o Brasil aos 17 anos para estudar e hoje trabalha com Cerruti e Nigura (da Igal) em São Paulo e cidades próximas.
Até por isso se diz por aí que para ser representante é preciso, além do talento e da disciplina financeira, amar muito o que faz, para poder ter compensação não apenas econômica pelo trabalho, mas não se incomodar em perder fins de semana por exemplo. A gaúcha que carrega as malas da Donna Karan, da DKNY e da Nautica (Marchon), Ana Lucia Costeira, nem percebe que a sexta-feira já acabou: "esqueço quando é sábado, me arrumo para trabalhar. Em compensação, curto muito meus momentos em casa, se tornam mais prazerosos."
A sensação de liberdade e de ser dona do próprio nariz é uma das coisas que estimula Goreti Pereira, que representa os estojos da Optitex e lentes oftálmicas da Iosa no Rio Grande do Sul. "Não conseguiria trabalhar fechada entre quatro paredes. Estar na estrada, conhecer e conversar com pessoas é gratificante para mim", confessa.
Hoje em dia, o país e o mercado óptico já estão mais acostumados com a presença de saias em lugares onde antes só havia gravatas. O que dita quem permanece ou não no emprego é a competência, mesmo que ainda haja barreiras e resistência a serem enfrentadas. Nada, porém, que uma boa dose de determinação e charme não resolva rapidinho.
A representante da Fox na capital paulista, Esther Galhardo, é quem melhor define: "Quem vende, não pode ter medo nem vergonha. Tem de encarar o que vier e botar a cara no mundo. Comecei na profissão há 20 anos e desde sempre pensava que se alguém achasse que havia algum problema no fato de eu ser mulher, o problema estava é na cabeça daquela pessoa que se incomodava com isso."
Atualmente, o sexo feminino já fincou suas raízes no mercado óptico nacional e há bem mais representantes mulheres do que apenas as entrevistadas destas páginas, que foram apenas a forma que a View encontrou para mostrar que brincos, saias e batom formam pares perfeitos com malas e mostruários. Parabéns para todas essas guerreiras!


Exemplo: aos 82 anos, Christine Frankel mantém-se na ativa com muita disposição
Christine Frankel

Ela é a mais antiga representante comercial do sexo feminino de que se tem notícia no país. Dona Cristina, como é popularmente conhecida, tem 82 anos, está na ativa até hoje e é um ícone do mercado óptico nacional.
Alemã de nascimento, há mais de 60 anos radicada no Brasil, Christine Frankel começou a desbravar esse país de dimensões continentais quando assumiu os negócios após a morte de seu marido, Klaus Eduard Frankel. Era preciso continuar a vida e para isso caiu na estrada – literalmente, porque continua tendo o ônibus como principal meio de transporte em suas viagens como representante.
Nem a idade avançada a fez dar um refresco no volume de trabalho ou diminuir o peso que carrega por esse país afora: são cerca de 15 quilos de armações
e outros produtos da empresa fundada por seu marido há mais de 50 anos. Christine Frankel é uma lição para todos à sua volta, pois cansaço ou desânimo não fazem parte do vocabulário dessa mulher que ajudou a escrever um importante capítulo da história da óptica no Brasil: o das mulheres vencedoras.

Josy Grandchamp

A óptica surgiu na vida de Josy por meio do seu marido, também representante comercial. Há sete anos, quando ainda eram namorados, começou a trabalhar no balcão de uma conceituada óptica de São Paulo e se apaixonou pelos óculos.
Mas, depois de casada, Josy parou de trabalhar para engravidar e cuidar dos filhos. Foram quatro anos de dedicação integral à casa e à maternidade. Enquanto isso, estava do outro lado: sabia como era o dia-a-dia de um representante por conhecer o trabalho do marido. Sabia administrar o ciúme, a ausência, pouca rotina, viagens e falta de horários.
A Óptica 2002 marcou seu retorno à vida profissional. Lá ela começou seu trabalho como representante da descolada griffe californiana Paul Frank, representada no Brasil pela Bright Eyes, atendendo a capital paulista e cidades próximas no interior ou no litoral do estado.
Josy sabe que vai sentir um pouco a distância dos filhos no começo, mas explica melhor do que ninguém seus motivos para voltar a trabalhar: "Antes eu era só mãe. Cuidava o tempo todo dos meus filhos, dava comida e banho nas horas certas. Por enquanto estava ótimo, mas meus filhos vão crescer e me perguntar coisas sobre o mundo que eu não iria saber, pois era só mãe. Agora eu voltei para o mundo, faço parte dele de novo e posso mostrá-lo melhor para eles."



Coruja: Carmen Wilmsen, da Luxottica, e as fotos que carrega da família
Carmen Wilmsen

No início dos anos 80, a gaúcha Carmen Wilmsen se viu numa situação que exigiu uma decisão que mudaria sua vida. Professora por profissão, ela acabara de se separar do marido e precisou optar por continuar seu trabalho ou procurar algo que lhe proporcionasse maior independência financeira e condições para criar dois filhos pequenos.
Resolveu, então, trabalhar com o cunhado na distribuidora das lentes de contato Bausch & Lomb e dos óculos Ray-Ban para o Rio Grande do Sul. Por ser formada em economia, começou na área administrativa, mas logo percebeu o mundo que a esperava na vida de representante comercial. Em 1985, contou com a ajuda da mãe para cuidar dos filhos e botou o pé na estrada: começou apenas com Porto Alegre e hoje, já na Luxottica, corre ópticas em cidades do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Carmen foi para a Luxottica quando a empresa adquiriu a Ray-Ban da Bausch & Lomb e hoje vende Salvatore Ferragamo, Sergio Tacchini e Luxottica.
Dirige para cima e para baixo, dorme cada vez em uma cidade diferente e só há pouco tempo contratou um rapaz – ou um guri, como ela mesma fala, lançando mão do "gauchês" - para ajudá-la a carregar as malas.
Superou a desconfiança e o preconceito do mercado, na época ainda muito mais masculino do que é hoje, sem perder sua feminilidade. "Não é porque eu fui trabalhar no meio de tantos homens que eu me tornaria igual a eles. Transformei desconfiança em respeito graças à minha competência, usando saia, salto e batom." E, como toda boa mulher e mãe, carrega a família para onde vai, mesmo que seja em fotos da neta querida, de quem Carmen morre de saudades a cada viagem.

Tatiana Oizumi

Ela sempre foi atrás de sua independência. Desde adolescente trabalhou em consultórios e locadoras de vídeo, onde conheceu seu marido que, de certa forma, lhe apresentou o mundo da óptica. Ele trabalha em uma empresa que confecciona brindes e foi lá, há cinco anos, que Tatiana conheceu a Vanin.
Desde então, essa paulistana de 26 anos roda a Grande São Paulo vendendo a infinita linha de produtos da empresa, com cerca de 4,5 mil itens, que vão de correntinhas e sprays de limpeza de lentes a ferramentas e óculos. E, como todos os seus colegas da Vanin, carrega diariamente como material de trabalho cerca de 15 kg de catálogos.
"A única vantagem dos homens é a força física que não me faz diferente, porque eu posso colocar tudo em um carrinho com rodinhas e pedir ajuda se for preciso. Competência e sucesso dependem muito mais da pessoa do que do sexo. Se fosse homem, acho que seria do mesmo jeito, tentando ser sempre simpática, honesta e o mais agradável possível", argumenta.
Tatiana encara todos os percalços da condição feminina como representante comercial com firmeza e naturalidade. Cantadas? Tudo bem, existem em qualquer lugar, partem de ambos os sexos. Mulher vendendo ferramentas para ópticas? Sim, qual o problema?

Disposição: Tatiana Oizumi, da Vanin, leva 15 quilos de catálogos e duas malas de óculos
É só mostrar que conhece bem o que está vendendo, inclusive os detalhes técnicos, e ser profissional. Basta um detalhe, que ela, certamente, tem impresso em sua história: amar o que faz.


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