Problemas de comunicação à parte, sua atividade permitiu capitalizar-se para, em 1920, abrir no centro da capital carioca, mais especificamente na Avenida Senhor dos Passos, a Joalheria A Marquesa. É quando inicia a história da família com a Rodenstock, pois a joalheria - que também atuava como óptica - tornou-se ponto de venda exclusivo de lentes e armações da companhia alemã no Brasil.
Em 1939, deflagrou-se a Segunda Guerra Mundial e, com ela, um festival de horrores, que incluíram, entre muitos outros, a "desapropriação" de várias indústrias em prol dos esforços de uma Alemanha molestada pelo nazismo. A Rodenstock foi uma delas e, ao final do combate, sobraram pouco mais que cinzas. No entanto, Rolf, o neto do fundador, Josef Rodenstock, decidiu recomeçar do zero, retomando a fábrica.
O que lhe restava do contato com seus clientes mundo afora era apenas um caderninho de endereços. Não tardou para que viesse ao Brasil procurar Seu Jacob que, após ser convidado para ser o representante no país, declinou da proposta e convocou seu genro, o pai de Eliezer, para tocar essa empreitada. Assim, nasceu a Importadora Brasileira de Óptica, que mais tarde se tornou Indústria Geral de Aparelhos e Lentes, mais conhecida como Igal. Nesse meio tempo, com o fechamento das importações, a empresa investiu na industrialização, produzindo armações.
Com a morte de seu pai, Eliezer e seu irmão Ronaldo passaram a comandar a empresa, com a segurança de já estarem mais que familiarizados ao dia-a-dia, já que ambos iniciaram-se profissionalmente na Igal. Eliezer, o mais velho e o mais inquieto dos dois, mal esperou ingressar na faculdade para dedicar parte de seu tempo à empresa, enquanto Ronaldo começou a trabalhar somente depois de se formar. Coube ao primeiro cuidar da administração, da importação e da comercialização, enquanto o segundo se ocupou da fabricação.
Os anos se passaram e Eliezer decidiu alçar um novo vôo profissional: em 1994, saiu da Igal para assumir a vice-presidência de uma empresa de engenharia. Nos últimos dois anos, passou a atuar como consultor na área de estruturação de negócios. No entanto, com a precoce morte de Ronaldo aos 45 anos, em fevereiro de 2001, Eliezer voltou a ocupar repentinamente a cadeira de presidente da Igal. Um mergulho de cabeça, como ele mesmo considera, esse retorno após sete anos. Mas, seguindo a tradição da família, o caminho rumo ao futuro já está sendo pavimentado: o sobrinho Marcelo é a quarta geração em ação, pois trabalha na empresa desde que o pai era vivo.
IGAL
www.igal.com.br
Fundação
Tudo começou em 1915 com uma óptica no Centro da capital carioca.
A indústria propriamente dita foi aberta em 1978.
Área de atuação
Distribuição de lentes oftálmicas, armações e óculos solares da alemã Rodenstock, além de equipamentos para autorefratores e facetadoras Seiko e Iname nos equipos de refração. Fabricação de óculos e equipamentos para consultórios oftalmológicos.
Números
Lentes e armações, em proporções iguais, representam 90% do movimento da Igal.
Os equipamentos, 10%. A importação de produtos fica com 85% diante de 15% de fabricação.
Estrutura de comercialização
40 profissionais, entre representantes comerciais e promotores, compõem o quadro de vendas.
Funcionários
60
Participação
As vendas da empresa estão distribuídas de acordo com o Produto Interno Bruto (PIB).
Estados com maior participação no cenário nacional também têm um peso maior no movimento da Igal, à exceção da capital gaúcha, Porto Alegre, que, em função da presença alemã, tem um valor especial para a empresa. A meta agora é incrementar as vendas no nordeste do país.
ENTREVISTA
Qual a diferença do mercado de quem saiu em 1994 e voltou em 2001?
A competição está muito mais acirrada e o mercado era mais criterioso. Houve uma pulverização de fornecedores nos anos 90 e no início do ano 2000. Agora é o tempo do comprador, não do vendedor; do demandador e não do ofertador. Fora isso, pouco mudou: os preços e os personagens são os mesmos, as práticas são mais ou menos as mesmas, o que facilitou o meu retorno.
Há ações complicadas no momento, como uma possível e perigosa verticalização, vulnerabilidades extremamente perigosas no varejo, grandes conglomerados se formam, grandes se desfazem. Em São Paulo, por exemplo, havia cadeias medianas e muitas sumiram; hoje há duas ou três, houve uma grande pulverização.
Iniciativas novas como cooperativismo e sistemas de compras coletivas estão eventualmente surgindo, mas não se sabe exatamente onde isso vai dar. E, de certa forma, o medo de vender o bom na ansiedade de vender, tem atrapalhado a rentabilidade, causando a vulnerabilidade do varejo.
Como o Brasil se abriu para o mundo por meio da globalização, a oferta aumentou muito. No entanto, é preciso ter critério. Além de produtos em demasia, momentos complicados na economia levaram à busca de produtos mais baratos.
A falta de qualificação também não floresceu nesse momento?
Sim. É a herança dos anos 80 e do começo dos 90, das crises doidas que o Brasil vivia. Com a restrição à importação, o que se tinha para vender era vendido. Então, para que investir no elemento técnico? Isso não foi apenas em óptica, mas em todos os ramos, o Senai e o Senac [respectivamente, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e Comercial] perderam substâncias: havia cursos de formação e aprimoramento, as indústrias investiam, mas depois veio a crise, vendeu-se tudo o que se produziu, porque a importação estava fechada e quase não havia concorrência.
Então para que gastar nisso? Usou-se o dinheiro em outras coisas e se parou de treinar. Com isso, existe hoje uma falta de pessoas treinadas, um processo difícil de ser revertido. Não se trata apenas de começar a treinar agora e achar que daqui a dois anos a questão está solucionada, tem de haver um investimento de todo o setor e de forma orquestrada. De nada adiantam iniciativas isoladas se não houver um esforço concentrado.
É preciso criar restrições para que as ópticas tenham elementos tecnicamente capacitados, e aí fazer com que tanto o profissional, quanto as empresas, se ajustem às novas regras, mas nada à força. Algo como anunciar que dentro de três anos haverá novas regras, a fim de que todos tenham tempo e surja, então, uma nova qualidade de profissionais.
Qual a principal mudança positiva que você observou quando regressou ao mercado?
A presença da moda. Até os anos 80, a técnica estava em voga. No final dos 80 já era uma coisa meio híbrida. Antes, havia a expectativa de que uma armação tinha de durar 20 anos e a lente tinha de ser "robusta". Hoje, é justamente o contrário. As armações de receituário são leves, as lentes cada vez mais finas e todo o mercado se movimenta em função da moda. Até as indústrias de lentes começaram a diminuir a altura mínima de suas multifocais para poder atender a moda, que dita designs cada vez menores.
Provavelmente, haverá uma mudança muito grande também nos desenhos dos óculos, porque a evolução técnica foi muito rápida nesses anos. A Rodenstock, por exemplo, lançou nos últimos quatro anos famílias de lentes com nova concepção. Esse esforço em pesquisa e desenvolvimento justifica o valor. Mas por que é caro? Porque há investimento em pesquisa, porque alguém tem de sair na frente.
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"O consumidor final precisa ser ‘seduzido’ pela idéia da versatilidade de uso dos óculos, em vez de apenas querer se livrar deles. Óculos são ideais para ‘mudar’ o rosto. Com freqüência, as pessoas - principalmente as mulheres - demonstram o desejo de ter uma nova aparência. Por que não com óculos?" |
A moda é um caminho sem volta na óptica?
Não diria que é um caminho sem volta, mas a tendência do momento. Não seria estranho se a técnica novamente voltasse a comandar. Historicamente já foi assim; é tudo muito cíclico: a moda já deu as cartas nos anos 70, a técnica nos anos 80, é um vai-e-vem. O momento, sem dúvida, é da moda, não vejo nada no horizonte que vá mudar tão cedo. Até os alemães se curvaram à moda, que até então era uma prerrogativa dos italianos, e hoje também fazem dela a sua alavanca.
Atualmente a moda e o design estão ligados à tecnologia; um não vive um sem o outro...
É o processo de produção, forma de viabilizar economicamente as criações. Há coisas fantásticas. As charneiras são um ótimo exemplo: existem várias concepções diferentes. As hastes são fininhas e para isso foi preciso desenvolver uma tecnologia, tudo para trazer cada vez mais leveza. E o consumidor final não é informado, ele precisa perceber e gostar, tendo parâmetros para comparar os produtos. Nada é ótimo se não tiver o ruim ou o pior para se comparar.
Qual o segredo de manter uma empresa por quatro gerações em um país onde a vida da maioria das empresas é curta?
Parte da questão de não ser aventureiro, de ter os pés no chão em tudo o que se faz, além de acreditar que o crescimento vem com o trabalho e não com golpes de sorte. É a filosofia do day after day, isto é, dia após dia, de respeitar o mercado e os clientes. O fato de trabalhar com a Rodenstock, uma das mais antigas indústrias ópticas do mundo, também contribui para isso.
Há possibilidades de a Rodenstock se instalar no Brasil?
Sempre há planos. O mercado brasileiro é muito grande, tem um potencial enorme. Qualquer indústria mantém um olho voltado para o Brasil. Tudo depende de algumas situações, mas é um mercado que atrai sempre. Mas, de qualquer maneira, projetos dessa magnitude não ocorrem de forma muito rápida e sinais muito mais evidentes começariam a ser percebidos pelo mercado.
"O que se tem hoje nas ópticas é uma pseudo-satisfação e um mínimo de retorno.
Muitos vendedores encaram o cliente como um problema, quando deveriam tirar o máximo e também oferecer o máximo de satisfação.
Não é uma troca injusta."
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Grande parte do conteúdo dos treinamentos e palestras ministrados pela indústria óptica no Brasil é de conhecimentos básicos de óptica e vendas em vez de informação sobre os produtos...
É claro, não adianta falar da diferença, por exemplo, entre Audi e Mercedes se a pessoa mal sabe o que é um automóvel. Tem de se falar primeiro sobre o automóvel em si, depois sobre o que é um bom automóvel e aí então apresentar as diferenças entre as duas marcas de carros.
Tanto ópticos quanto oftalmologistas têm de ser qualificados em um processo de "apertamento de parafusos" orquestrado. Todos necessitam ser valorizados, o óptico precisa ganhar mais, a consulta precisa custar mais caro, não se pode trabalhar com produto barato, é uma seqüência lógica. Para isso ocorrer, é preciso atender a um trinômio de qualidade: produto, óptico e oftalmologista. Senão, o mercado continuará trabalhando sem agregar valor, correndo o risco de morrer na praia.
Um aspecto importante também é o fim da briga entre as duas categorias. O objetivo em comum é o alargamento do mercado consumidor. Não vejo sentido em lutar contra o potencial parceiro, já que um é complemento do outro. A equação está errada, será que ninguém consegue perceber?
No Brasil, na venda de um par de óculos, a percentagem é muito maior para a armação do que para a lente, quando em outros países é o contrário... Qual o caminho para equilibrar esses percentuais?
Na hora da compra, o consumidor não está escolhendo a lente, mas a armação e não sabe se a lente é boa ou ruim. Por meio da qualificação do óptico, será possível mudar essa situação. É claro que um profissional mais qualificado vai querer vender o melhor dentro das possibilidades de cada um de seus clientes. Há vendas e vendas, não estou dizendo que todo mundo tem de vender o mais caro, o pecado é que há muitos clientes que podem comprar coisa muito melhor e estão comprando coisas piores.
Isso acontece muito e o grande motivo é a falta de informação. O que se tem hoje nas ópticas é uma pseudo-satisfação e um mínimo de retorno. Muitos vendedores encaram o cliente como um problema, quando deveriam tirar o máximo e também oferecer o máximo de satisfação. Não adianta meter a mão na carteira do sujeito! Tem de se dar o máximo de satisfação para receber o máximo de valor, não é uma troca injusta.
Todo o mercado tem de trabalhar para que o consumidor gaste com prazer na óptica e, de preferência, muito. Com isso, o cliente fica feliz e recompensado, pois realizou um sonho de consumo e sente-se seguro porque o óptico se preocupou em oferecer o melhor.
Além das deficiências técnicas, grande parte do varejo não conhece bem os produtos...
Não sei como é rotatividade da mão-de-obra de óptica, se ocorre entre ópticas ou se as pessoas mudam de ramo com freqüência, porque no momento em que há a rotação e ao sair da loja A o indivíduo migra para a loja B, sai da B vai para a C, o investimento que se fez nesse profissional é absorvido pelas lojas A, B e C durante a sua vida. Quando a pessoa sai do ramo, é jogado fora todo esse investimento.
Até que ponto a valorização por meio da remuneração dos profissionais de balcão e do técnico de óptica também não é um fator de sua manutenção na empresa e no mercado? Enquanto esse panorama não mudar, a situação continuará difícil. Também passa pelo fato de o óptico recusar produtos a preço de banana.
"Até que ponto a valorização por meio da remuneração dos profissionais de balcão e dos técnicos de óptica também não é um fator de sua manutenção na empresa e no mercado? Enquanto esse panorama não mudar, a situação continuará difícil."
O que acha da tendência de as indústrias de lentes oftálmicas estarem comprando os laboratórios?
Já ocorre há algum tempo nos Estados Unidos e no Brasil está em vias de, mas não sei até que ponto isso levará a alguma coisa. Tenho dúvidas se é de fato uma política sadia de médio a longo prazos para o mercado e para os próprios fabricantes.
O que a tecnologia reserva para o mercado óptico em curto e médio prazos?
Preocupa-me muito a evolução tecnológica. É duro ver os laboratórios ópticos, muitas vezes endividados pela aquisição de equipamentos para determinada tecnologia que eu não sei se vai durar. Novos materiais podem mudar radicalmente a configuração do mercado em um período muito curto de tempo. Aliás, os japoneses dizem que 80% dos produtos que serão consumidos daqui a 20 anos ainda nem foram inventados.
Não sei até que ponto essas mudanças podem ocorrer com armações, lentes oftálmicas e seu processamento nos laboratórios. Tenho a leve suspeita de que novas tecnologias já estão a caminho e por isso é preciso escoar rapidamente o processo de produção vendendo as máquinas.
Gostaria apenas que as pessoas refletissem um pouco sobre o futuro do mercado, o que foi bom nos últimos 20 anos, o que ocorreu de fato para que se tenha a visão clara dos próximos dez anos.
Qual a diferença do mercado de quem saiu em 1994 e voltou em 2001?
A competição está muito mais acirrada e o mercado era mais criterioso. Houve uma pulverização de fornecedores nos anos 90 e no início do ano 2000. Agora é o tempo do comprador, não do vendedor; do demandador e não do ofertador. Fora isso, pouco mudou: os preços e os personagens são os mesmos, as práticas são mais ou menos as mesmas, o que facilitou o meu retorno.
Há ações complicadas no momento, como uma possível e perigosa verticalização, vulnerabilidades extremamente perigosas no varejo, grandes conglomerados se formam, grandes se desfazem. Em São Paulo, por exemplo, havia cadeias medianas e muitas sumiram; hoje há duas ou três, houve uma grande pulverização.
Iniciativas novas como cooperativismo e sistemas de compras coletivas estão eventualmente surgindo, mas não se sabe exatamente onde isso vai dar. E, de certa forma, o medo de vender o bom na ansiedade de vender, tem atrapalhado a rentabilidade, causando a vulnerabilidade do varejo.
Como o Brasil se abriu para o mundo por meio da globalização, a oferta aumentou muito. No entanto, é preciso ter critério. Além de produtos em demasia, momentos complicados na economia levaram à busca de produtos mais baratos.
A falta de qualificação também não floresceu nesse momento?
Sim. É a herança dos anos 80 e do começo dos 90, das crises doidas que o Brasil vivia. Com a restrição à importação, o que se tinha para vender era vendido. Então, para que investir no elemento técnico? Isso não foi apenas em óptica, mas em todos os ramos, o Senai e o Senac [respectivamente, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e Comercial] perderam substâncias: havia cursos de formação e aprimoramento, as indústrias investiam, mas depois veio a crise, vendeu-se tudo o que se produziu, porque a importação estava fechada e quase não havia concorrência.
Então para que gastar nisso? Usou-se o dinheiro em outras coisas e se parou de treinar. Com isso, existe hoje uma falta de pessoas treinadas, um processo difícil de ser revertido. Não se trata apenas de começar a treinar agora e achar que daqui a dois anos a questão está solucionada, tem de haver um investimento de todo o setor e de forma orquestrada. De nada adiantam iniciativas isoladas se não houver um esforço concentrado.
É preciso criar restrições para que as ópticas tenham elementos tecnicamente capacitados, e aí fazer com que tanto o profissional, quanto as empresas, se ajustem às novas regras, mas nada à força. Algo como anunciar que dentro de três anos haverá novas regras, a fim de que todos tenham tempo e surja, então, uma nova qualidade de profissionais.
Qual a principal mudança positiva que você observou quando regressou ao mercado?
A presença da moda. Até os anos 80, a técnica estava em voga. No final dos 80 já era uma coisa meio híbrida. Antes, havia a expectativa de que uma armação tinha de durar 20 anos e a lente tinha de ser "robusta". Hoje, é justamente o contrário. As armações de receituário são leves, as lentes cada vez mais finas e todo o mercado se movimenta em função da moda. Até as indústrias de lentes começaram a diminuir a altura mínima de suas multifocais para poder atender a moda, que dita designs cada vez menores.
Provavelmente, haverá uma mudança muito grande também nos desenhos dos óculos, porque a evolução técnica foi muito rápida nesses anos. A Rodenstock, por exemplo, lançou nos últimos quatro anos famílias de lentes com nova concepção. Esse esforço em pesquisa e desenvolvimento justifica o valor. Mas por que é caro? Porque há investimento em pesquisa, porque alguém tem de sair na frente.
A moda é um caminho sem volta na óptica?
Não diria que é um caminho sem volta, mas a tendência do momento. Não seria estranho se a técnica novamente voltasse a comandar. Historicamente já foi assim; é tudo muito cíclico: a moda já deu as cartas nos anos 70, a técnica nos anos 80, é um vai-e-vem. O momento, sem dúvida, é da moda, não vejo nada no horizonte que vá mudar tão cedo. Até os alemães se curvaram à moda, que até então era uma prerrogativa dos italianos, e hoje também fazem dela a sua alavanca.
Atualmente a moda e o design estão ligados à tecnologia; um não vive um sem o outro...
É o processo de produção, forma de viabilizar economicamente as criações. Há coisas fantásticas. As charneiras são um ótimo exemplo: existem várias concepções diferentes. As hastes são fininhas e para isso foi preciso desenvolver uma tecnologia, tudo para trazer cada vez mais leveza. E o consumidor final não é informado, ele precisa perceber e gostar, tendo parâmetros para comparar os produtos. Nada é ótimo se não tiver o ruim ou o pior para se comparar.
O varejo é conservador?
Não necessariamente. Em termos de armações de receituário, o público usuário de óculos é composto, em média, por pessoas mais velhas. Com isso, a óptica acaba se tornando um lugar de gente mais velha. Obviamente, as pessoas de 45 anos hoje têm outra cabeça do que tinham as pessoas de 25 anos atrás que na época tinham 45, hoje com 70. Há uma evolução, mas de forma lenta. Com raríssimas exceções, é quase impossível qualificar uma óptica como vanguarda absoluta, porque o público médio tem 40 anos ou mais.
Já em relação aos óculos solares, a situação muda de figura, pois o público jovem gosta e compra. Daí, o sucesso das griffes e, principalmente, das esportivas, como Reebok, Nike, Oakley etc.
Que dica você dá para um varejista de óptica ser bem-sucedido?
Especializar-se cada vez mais, tanto o proprietário quanto os seus funcionários. É preciso que cada um qualifique ao máximo a sua equipe. Isso gera o suporte para a venda de valor agregado. Assim, todos ganharão mais dinheiro. O resto vem naturalmente.
A cirurgia refrativa ameaça o mercado?
Sem dúvida, a cirurgia refrativa é um sucesso, o número de complicações quando se analisa o volume de intervenções realizado é muito pequeno, mas as pessoas não vão deixar de usar óculos. Mais cedo ou mais tarde, terão de recorrer a eles novamente.
No entanto, o consumidor final precisa ser "seduzido" pela idéia da versatilidade de uso dos óculos, em vez de apenas querer se livrar deles. Óculos são ideais para "mudar" o rosto. Com freqüência, as pessoas - principalmente as mulheres - demonstram o desejo de ter uma nova aparência. Por que não com óculos, já que as outras opções são mínimas? Os homens podem mudar o cabelo ou deixar bigode, cavanhaque ou barba. Às mulheres, resta ainda menos opções: mudar o penteado ou a cor dos cabelos. Com os óculos, pode-se brincar como quiser e com uma freqüência incomparavelmente maior.
Qual o segredo de manter uma empresa por quatro gerações em um país onde a vida da maioria das empresas é curta?
Parte da questão de não ser aventureiro, de ter os pés no chão em tudo o que se faz, além de acreditar que o crescimento vem com o trabalho e não com golpes de sorte. É a filosofia do day after day, isto é, dia após dia, de respeitar o mercado e os clientes. O fato de trabalhar com a Rodenstock, uma das mais antigas indústrias ópticas do mundo, também contribui para isso.
Há possibilidades de a Rodenstock se instalar no Brasil?
Sempre há planos. O mercado brasileiro é muito grande, tem um potencial enorme. Qualquer indústria mantém um olho voltado para o Brasil. Tudo depende de algumas situações, mas é um mercado que atrai sempre. Mas, de qualquer maneira, projetos dessa magnitude não ocorrem de forma muito rápida e sinais muito mais evidentes começariam a ser percebidos pelo mercado.
Grande parte do conteúdo dos treinamentos e palestras ministrados pela indústria óptica no Brasil é de conhecimentos básicos de óptica e vendas em vez de informação sobre os produtos...
É claro, não adianta falar da diferença, por exemplo, entre Audi e Mercedes se a pessoa mal sabe o que é um automóvel. Tem de se falar primeiro sobre o automóvel em si, depois sobre o que é um bom automóvel e aí então apresentar as diferenças entre as duas marcas de carros.
Tanto ópticos quanto oftalmologistas têm de ser qualificados em um processo de "apertamento de parafusos" orquestrado. Todos necessitam ser valorizados, o óptico precisa ganhar mais, a consulta precisa custar mais caro, não se pode trabalhar com produto barato, é uma seqüência lógica. Para isso ocorrer, é preciso atender a um trinômio de qualidade: produto, óptico e oftalmologista. Senão, o mercado continuará trabalhando sem agregar valor, correndo o risco de morrer na praia.
Um aspecto importante também é o fim da briga entre as duas categorias. O objetivo em comum é o alargamento do mercado consumidor. Não vejo sentido em lutar contra o potencial parceiro, já que um é complemento do outro. A equação está errada, será que ninguém consegue perceber?
No Brasil, na venda de um par de óculos, a percentagem é muito maior para a armação do que para a lente, quando em outros países é o contrário... Qual o caminho para equilibrar esses percentuais?
Na hora da compra, o consumidor não está escolhendo a lente, mas a armação e não sabe se a lente é boa ou ruim. Por meio da qualificação do óptico, será possível mudar essa situação. É claro que um profissional mais qualificado vai querer vender o melhor dentro das possibilidades de cada um de seus clientes. Há vendas e vendas, não estou dizendo que todo mundo tem de vender o mais caro, o pecado é que há muitos clientes que podem comprar coisa muito melhor e estão comprando coisas piores.
Isso acontece muito e o grande motivo é a falta de informação. O que se tem hoje nas ópticas é uma pseudo-satisfação e um mínimo de retorno. Muitos vendedores encaram o cliente como um problema, quando deveriam tirar o máximo e também oferecer o máximo de satisfação. Não adianta meter a mão na carteira do sujeito! Tem de se dar o máximo de satisfação para receber o máximo de valor, não é uma troca injusta.
Todo o mercado tem de trabalhar para que o consumidor gaste com prazer na óptica e, de preferência, muito. Com isso, o cliente fica feliz e recompensado, pois realizou um sonho de consumo e sente-se seguro porque o óptico se preocupou em oferecer o melhor.
Além das deficiências técnicas, grande parte do varejo não conhece bem os produtos...
Não sei como é rotatividade da mão-de-obra de óptica, se ocorre entre ópticas ou se as pessoas mudam de ramo com freqüência, porque no momento em que há a rotação e ao sair da loja A o indivíduo migra para a loja B, sai da B vai para a C, o investimento que se fez nesse profissional é absorvido pelas lojas A, B e C durante a sua vida. Quando a pessoa sai do ramo, é jogado fora todo esse investimento.
Até que ponto a valorização por meio da remuneração dos profissionais de balcão e do técnico de óptica também não é um fator de sua manutenção na empresa e no mercado? Enquanto esse panorama não mudar, a situação continuará difícil. Também passa pelo fato de o óptico recusar produtos a preço de banana.
O que acha da tendência de as indústrias de lentes oftálmicas estarem comprando os laboratórios?
Já ocorre há algum tempo nos Estados Unidos e no Brasil está em vias de, mas não sei até que ponto isso levará a alguma coisa. Tenho dúvidas se é de fato uma política sadia de médio a longo prazos para o mercado e para os próprios fabricantes.
O que a tecnologia reserva para o mercado óptico em curto e médio prazos?
Preocupa-me muito a evolução tecnológica. É duro ver os laboratórios ópticos, muitas vezes endividados pela aquisição de equipamentos para determinada tecnologia que eu não sei se vai durar. Novos materiais podem mudar radicalmente a configuração do mercado em um período muito curto de tempo. Aliás, os japoneses dizem que 80% dos produtos que serão consumidos daqui a 20 anos ainda nem foram inventados.
Não sei até que ponto essas mudanças podem ocorrer com armações, lentes oftálmicas e seu processamento nos laboratórios. Tenho a leve suspeita de que novas tecnologias já estão a caminho e por isso é preciso escoar rapidamente o processo de produção vendendo as máquinas.
Gostaria apenas que as pessoas refletissem um pouco sobre o futuro do mercado, o que foi bom nos últimos 20 anos, o que ocorreu de fato para que se tenha a visão clara dos próximos dez anos.