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Assuntos Técnicos em Foco

Fins que justificam os meios

Depois da teoria das lentes alto índice da edição anterior, você tem agora dicas de como me-lhor aplicá-las no dia-a-dia da óptica. Como qualquer orientação ao consumidor, a venda de lentes de alto índice requer também atenção especial, desde a tomada de medidas até a escolha da armação. Vale a pena? A satisfação dos clientes prova que sim.

Artigo de Eric Gozlan
Edição Andrea Tavares e Graziela Canella
Ilustrações Moacir Soares

É tentador sugerir ao cliente uma lente 1.8 com a promessa de um resultado fantástico, tanto no aspecto estético quanto na qualidade visual. É sempre importante lembrar, no entanto, que se as lentes de alto índice não forem tratadas com muito cuidado, o resultado pode não ser o melhor e mais satisfatório para o cliente.
Por exemplo, uma lente 1.9 com dioptria –13.00D, montada numa armação de diâmetro efetivo de 65 milímetros, terá a es-pessura de borda de 11 milímetros e peso de 70g! Daí se per-cebe que uma lente de índice alto não garante, obrigatoriamente, um bom resultado estético, conforto e boa qualidade visual para os usuários portadores de altas ametropias.
Por isso, é importante respeitar rigorosamente vários crité-rios na escolha das lentes, na tomada de medidas, nos tratamen-tos e, sobretudo, na armação bem escolhida. E, para encerrar o trabalho, executar um ajuste perfeito da peça no rosto do cliente.

De olho no prisma - Quando uma lente oftálmica é montada fora da distância naso-pupilar (DNP), ou seja, o centro óptico é descentrado em relação ao eixo visual do olho – geralmente confundido com o centro da pupila - ocorre um fenômeno cha-mado de efeito prismático P (em dioptria prismática, é conhecido pelo símbolo D).

É o mesmo que colocar um prisma na frente do olho e fazê-lo girar para neutralizá-lo.


Uma dioptria prismática (D) corresponde a um desvio de um centímetro a cada metro
Ao olhar por meio de um prisma, a imagem sempre terá sua percepção alterada na medida em que é desviada no ápice deste prisma.
Tal efeito, demonstrado pela regra de Prentice, depende de dois valores: o grau da lente em dioptrias (D) e da distância em cen-tímetros (d) entre o centro óptico da lente e o ponto de medida.

PD = d (em cm) x I Dd I (Regra de Prentice)

Em resumo, quanto maior é a descentralização e o grau da lente, maior vai ser o efeito prismático, portanto, maior o incômodo visual. Por exemplo, se um cliente usa lentes de -1.00D, e a lente é descentrada verticalmente. Se a distância entre o centro óptico e a pupila é de 3 milímetros, o efeito prismático será P=0,3 x 1= 0,3D. Esse efeito é tolerável pelo usuário.
Contudo, um cliente com –10.00D, quando tem em suas lentes a mesma descentralização, sofre um efeito prismático de 3D, o que resulta em distúrbios na visão. Usuários com anisome-tropia alta, sob efeito de descentralização, podem chegar a ver imagens duplas – o fenômeno conhecido como diplopia. No cen-tro óptico, a imagem não se altera mas, fora dele, pode sofrer desvios, dependendo do tipo de lente.
Para medir o efeito prismático induzido por má centralização, basta colocar o foco do lensômetro no suposto ponto de centragem – teoricamente, o centro da pupila. A imagem vista é descentralizada na base do prisma, e o valor é lido no lugar de referência de prisma (na maioria dos lensômetros, são vários círculos concêntricos e numerados de 1 a 4).


Nas lentes de alto índice, a centragem na horizontal (DNP) e na vertical (altura de montagem) deve ser cuidadosamente verificada


Cuidado com as medidas - A tomada de medidas deve ser feita rigorosamente, para evitar os já mencionados problemas estéticos e visuais que um erro na DNP ou na altura pode causar. Trata-se de um procedimento indispensável para a perfeita adaptação das lentes de alto índice.
O pupilômetro é o instrumento mais indicado para medir a DNP, embora, em determinados casos, quando se trata de uma postura de cabeça diferente, de crianças ou casos de assimetria do nariz, a régua também pode ser utilizada, desde que seja por um óptico bastante experiente.
Antes de medir a altura, é recomendável que se faça um pré-ajuste da armação, verificando o equilíbrio, observando se as plaquetas estão bem apoiadas no nariz e as hastes bem posicionadas nas orelhas.
Outro cuidado indispensável é respeitar a posição natural da cabeça do cliente, colocando-se na altura dos olhos do clien-te. Caso contrário, é provável que ocorra um erro de paralaxe, que consiste em um mau alinhamento dos olhos.


A pupila do cliente parece estar mais acima ou abaixo do normal, dependendo de como o óptico se posiciona


Escolha da armação ideal - A perfeita adaptação do cliente às novas lentes depende, e muito, da correta escolha da arma-ção. Se a parte frontal for muito plana, o resultado será um des-conforto na visão periférica, portanto deve-se sempre curvá-la levemente. A armação também deverá ter uma inclinação de 10º a 12º, para que se obtenha uma boa qualidade visual de perto.

Como cerca de 90% do peso dos óculos se concentra sobre o nariz - região particularmente vascularizada e, portanto, sensível -, as plaquetas devem estar confortavelmente modeladas ao formato do nariz, o que pode evitar o incômodo causado pelo peso das lentes, especialmente as minerais de alto ín-dice. A compressão das veias pelas plaquetas pode bloquear a circulação sanguínea, provocando dor de cabeça e até alteração no tecido. Se apesar do ajuste ainda houver sensação de des-conforto, pode-se optar por plaquetas de silicone ou gel.
O tamanho da armação também merece atenção. As meno-res são as mais indicadas para casos de altas ametropias, já que o peso ficará menor, e as bordas, mais finas. O cliente pode ainda economizar o dinheiro que gastaria comprando uma lente mineral 1.8 ou 1.9, pois uma orgânica 1.67 ficará tão boa quanto na armação pequena, e investir o valor restante em um par de óculos solares. É bom lembrar que uma boa venda não é a do produto de maior valor, mas a que satisfaz e encanta o cliente.
Além de pequena, a armação deve ficar bem centralizada no rosto, ou seja, a DNP deverá ter valor bem próximo ao do centro geométrico do aro, a fim de não provocar desigualdade de espessura e prejudicar o resultado estético das lentes.
Outro fator importante na escolha da armação é a distância vértice (entre a lente e o olho), que deve variar entre 12 milíme-tros e 14 milímetros, sobretudo em altas dioptrias. Em alguns casos, em armações de plaquetas, pode-se fazer um ajuste, mas a maioria dos casos não permite tal adaptação. Se a armação fica muito afastada dos olhos, há alteração de grau – o míope ficará subcorrigido, e o hipermétrope, supercorrigido.
Vale considerar, também, a possibilidade de que as bordas mais espessas, resultantes de alta miopia, impedirem o fecha-mento das hastes. Na dúvida, é melhor dar preferência a arma-ções de talões alongados. E, obviamente, armações flutuantes com ametropias altas definitivamente não combinam.
Adaptar perfeitamente as lentes de alto índice a usuários de altas dioptrias, portanto, é um dos exercícios mais complexos e completos para o óptico, na medida em que requer amplos co-nhecimentos tanto técnicos como práticos. De qualquer forma, é um trabalho muito gratificante, já que o resultado é a completa satisfação do cliente.

MENU RÁPIDO
A seguir, algumas soluções simples para problemas que podem ocorrer na adaptação de lentes de alto índice

Dor de cabeça?
Verificar DNP, altura ou alta pressão das plaquetas

Visão borrada?
Verificar DNP ou altura

Desconforto visual?
Verificar altura, DNP, distância entre lente e olho

Mudança da postura de cabeça?
Verificar DNP

Diplopia?
Verificar altura e eixo

Imagens duplas?
Verificar eixo e recomendar a aplicação do tratamento anti-reflexo

Desconforto geral?
Curvar a face, verificar DNP, altura, grau e recomendar a aplicação do tratamento anti-reflexo

Desconforto no nariz?
Ajustar ou trocar plaquetas

Halos coloridos?
Recomendar a aplicação do tratamento anti-reflexo

Eric Gozlan é óptico
hightechrevistaview@yahoo.com.br


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