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:: Sucesso :: Janeiro de 2006

Momento Cult
Sensualidade à venda

A sedução sempre fez parte da moda, especialmente a feminina, mas desde quando a sexualidade e o erotismo estão estampados nas campanhas publicitárias das melhores revistas de moda e comportamento do planeta? A VIEW conversou com profissionais de vários segmentos do mercado de moda para entender melhor essa questão.
Texto Lucila Rupp
Pesquisa, edição e texto para as imagens Andrea Tavares

Durante a Segunda Guerra Mundial, elas estampavam caixinhas de fósforos, calendários e maços de cigarro. Em uma década, a de 40, em que mostrar certas partes do corpo era um escândalo, as provocantes pin ups faziam o sonho dos soldados norte-americanos. Essas musas desenhadas são consideradas por muitos as precursoras do uso da figura da mulher sensual na publicidade e na moda. Desenhadas a partir de uma modelo real, porém, com suas curvas retocadas, esbanjavam sensualidade, mas ainda exibiam certa ingenuidade e inocência.

Já na segunda metade do século 20, o mundo assistiu a uma reviravolta nas campanhas de moda, que acompanharam o progresso e a liberação feminina, e foram perdendo o ingrediente ingênuo e ganhando em erotismo e muita, mas muita, sensualidade. Mais explicitamente, desde a década de 90, publicidade de marcas como Gucci, Versace e Calvin Klein provam que sexo vende mais do que produtos: sugerem comportamento, irreverência e ousadia.

Quando questionado sobre a invasão do estilo “pornô chique” nas campanhas publicitárias das maisons francesas de moda, o sociólogo e pesquisador Michael Lowy, em entrevista à revista Veja, em dezembro de 2001, deu uma ótima explicação: “quanto mais os produtos se sofisticam, menos eles têm a possibilidade de se vender pela sua função real. O que os publicitários fazem é agregar a eles um valor imaginário, como a possibilidade de atingir o êxtase”.


“Eu observo, tu observas, todos nós observamos” - “Nos anos 90, o consumidor se tornou um voyeur”, afirma a autora do recém-lançado livro Moda e Linguagem pela editora Anhembi Morumbi, Káthia Castilho. “As imagens se constituem dentro de um diálogo de erotismo e o olhar é invasivo”.

Nessa década, o consumidor passou a conviver nas ruas e nas revistas com mensagens extremamente erotizadas das campanhas de moda. “Depois da virada do século, outras categorias além do erotismo passaram a ser usadas, como o “corpo-maquínico” e a questão “cyber” (cibernética).

As campanhas continuam sexualizadas, mas a relação é outra. Às vezes, por exemplo, o erotismo se transforma em auto-erotismo, mostrando a relação de pessoas com máquinas”, afirma. Para Káthia, até os atuais modelos de óculos solares exemplificam o padrão do humano meio boneco, meio máquina. “Os novos óculos propõem o “não-olhar”: são grandes, cobrem a sobrancelha e são usados à noite, em casas noturnas. É uma forma de dialogar com essas interferências contemporâneas, de criar personagens e não parecer acessível”, explica.


Privilégio reservado aos de vanguarda - Já a designer Renata Régis considera que a sexualidade pode usada somente por algumas griffes. “A marca deve ter um histórico e um conceito muito bem sedimentado por trás de uma publicidade com apelo sensual. Se uma griffe pouco conhecida faz a mesma provocação, o consumidor pode considerá-la vulgar”, analisa.

Segundo Renata, que assina uma coleção de óculos de mesmo nome para a Optisol, as marcas de vanguarda usam bem essa imagem. “A mensagem que a griffe transmite é a de que seu consumidor tem personalidade própria e não tem problemas com sua sexualidade. Vive-se um período em que se pode expressar tudo o que se sente. Obviamente, muita coisa ainda choca, porque são dois milênios de uma cultura que reprime o instinto sexual, mas as casas de moda que têm coragem de quebrar tabus estão usando como trunfo a tal quebra de tabu para atingir seu público-alvo”, afirma.

E ainda propõe uma analogia com a psicanálise: “quando uma imagem explora o instinto sexual, ela mexe com os desejos mais primitivos do ser humano. Para Freud, o que move o homem é o sexo; ele é o instinto de vida. Da mesma forma que o ser humano está o tempo todo em busca pela sua sobrevivência, as marcas também estão buscando a delas. E o sexo pode ajudá-las nesse processo”.


Registros de épocas - “Na história da humanidade, o compromisso com o erotismo e com a sedução sempre esteve presente na indumentária feminina. Durante o Renascimento, por exemplo, as mulheres adotaram o corpete para afinar a cintura. Ao longo de inúmeros outros períodos, estiveram presentes decotes e transparências”.

A afirmação é de uma das maiores autoridades do mundo em história da moda, o estilista e professor João Braga, que considera o Brasil pioneiro na utilização do erotismo e da sedução como recursos de marketing. “Nos anos 90, o sexo e o erotismo, que seriam normalmente proibidos, passaram a ser pautas da contemporaneidade e vieram à tona nas campanhas internacionais. Os países que ditam moda passaram a usar esses recursos, que o Brasil já usava há muito tempo”, observa.

Entre os fatores que colocaram o país à frente dos outros está a questão da intimidade que a brasileira tem com o próprio corpo e a ousadia dos anos 60 no Brasil. Nessa década, de feminismo e pílula anticoncepcional, a brasileira jovem começou a usar biquíni, mini-saia e, nos anos 80, o jeans com lycra da carioca Inega. A propaganda do chamado “jeans de Ipanema” trazia uma mulher de “barriguinha pra dentro e bundinha pra cima”, conforme apregoava literalmente o slogan da marca.


Corpo como meio de sedução - A figura feminina sempre esteve presente na propaganda. Antes da década de 1940, donas de casa de meia idade eram as estrelas em comerciais bem comportados. Quando a publicidade passou a utilizar o corpo humano como meio de sedução para a venda, a mulher apareceu muito mais como um objeto estético, de uma beleza plástica ideal valorizada pela moda.

A partir dos anos 40, essa mulher – primeiro em ilustração e depois em fotografia – passou a olhar para o consumidor, criando uma mensagem um pouco mais subjetiva e erotizada. “Essa comunicação do olhar remete ao prazer sensual. Quando a modelo olha para o consumidor, é um tipo de comunicação. Quando fecha os olhos para vender o produto, é outro. A questão sensual deixou de ser só estética e focada no belo, no feminino, e passou a ganhar cada vez mais atributos referentes à erotização, que também está no olhar”, define Káthia Castilho.


Seriedade de lado: até griffes mais formais como as francesas Hermés, em 2004, e Louis Vuitton, em 2003, sugeriram conceitos de dominação em recentes campanhas. A da Vuitton, inclusive, usa a imagem da cantora norte-americana Jennifer Lopez


O espírito do tempo: coincidentemente, nesta temporada, as campanhas bem humoradas da Diesel tem a sensualidade como mote. A começar pela capa da VIEW


Nudez perfumada: torsos e corpinhos nus não faltam para estrelar as campanhas de perfumes, como mostram as campanhas das griffes Celine, D&G, Joop!, Versace e Yves Saint Laurent, entre muitas outras



Homem – máquina: a relação de pessoas com máquinas é uma constante dos tempos atuais. Dois bons exemplos, ambos de 2000, são a modelo suja de graxa no anúncio da Dior e o contato com o robô no da Bruno Magli


O contraste entre modelos muito bem vestidas em meio a cenas de nudez foi a tônica das campanhas de duas griffes italianas, Valentino e Versace, respectivamente em 2000 e 2001


“Até tu Brutus!”: A norte-americana Levi’s também embarcou na onda da sensualidade em abril, exibindo um modelo masculino sem camisa e em pose convidativa

Censura: tolerância tem limite até nas campanhas publicitárias de moda. A veiculação de algumas delas foram barradas em algumas revistas e outras tiveram de ser adaptadas, perdendo a ousadia original. A do designer óptico francês Alain Mikli, em 2003, com o sugestivo e bem sacado slogan “Alain Mikli veste seus olhos” em uma imagem que sutilmente era uma referência ao órgão sexual feminino ficou de fora de algumas revistas. Já a do perfume M7 de Yves Saint Laurent que aí se vê é o que sobrou de uma foto que na sua versão original exibia o modelo inteiramente nu, com seu pênis à mostra. A do perfume Opium, também de Saint Laurent, sofreu retaliações e deu o que falar com a modelo ruiva Sophie Dahl e sua total alvura à mostra



Voyeurismo: a bela campanha da Dolce & Gabbana em 2003 revelou uma Gisele Bundchen interessada em observar. Sem falar na sensualidade dos seus trajes

Mais que boas amigas: a campanha de John Galliano para a Dior em 2000 sugeria uma relação bem apimentada entre a übber model brasileira Gisele Bundchen e a modelo norte-americana Rhea Durham. O quase beijo das duas modelos de óculos da Valentino que foi capa da VIEW 56, em maio de 2004, também não ficou atrás em termos de tensão sexual


“I touch myself”: em pose sugestiva, a modelo na campanha da Ungaro revela um certo prazer em se tocar

Originalidade: em preto e branco, nua e de pernas abertas, a sensual modelo serve de “display” para a real imagem da campanha do italiano Valentino
O precursor Calvin Klein e suas provocações
Foi o estilista norte-americano o pioneiro nas provocações, especialmente com suas campanhas de perfume e underwear (termo em inglês que define moda íntima tanto feminina como masculina). Tudo começou em 1992 com a escalação do então rapper e aspirante a ator norte-americano Mark Wahlberg (na época, conhecido como Marky Mark), em sensuais ensaios em que, invariavelmente, exibia o abdômen sarado a bordo apenas das básicas cuecas brancas da griffe. Depois dessa, muitas outras vieram



Tom Ford, um amante da sensualidade
Mais que ser conhecido por trazer a Gucci de volta à vida após uma temporada de baixa, o designer de moda texano também deixou sua marca nas campanhas publicitárias da griffe italiana de 1994 até abril de 2004, quando deixou a casa para anunciar a criação de sua griffe própria em abril.
O “G” de Gucci “esculpido” nos pelos pubianos de uma modelo admirado por um atento observador na campanha de 2003 é uma das suas ousadias que mais merece destaque

Legenda:
Tom Ford: do cinto em riste sugerindo uma ereção ao púbis feminino reproduzindo o “G” de Gucci, o estilista texano ousou bastante durante sua permanência na casa italiana de moda
Sisley, um caso à parte
A marca que nasceu na França em um ano controverso como 1968, tão marcado por manifestações e desobediência civil, especialmente em seu país natal, a França, não podia mesmo ser muito certinha. Adquirida em 1974 pela italiana Benetton, mas levada a sério de fato apenas desde 1985, a Sisley ocupa tranqüilamente o número um no ranking da ousadia: todas as suas campanhas são pura provocação, em que de forma sutil ou direta, muito direta, todas as possibilidades de sensualidade e erotismo são exploradas.
Em uma das campanhas de 2004, o astro é o polêmico modelo, ator pornô e namorado da popstar Madonna no início dos anos 90, Tony Ward

Legenda
2004: em Paris como cenário, Tony Ward é o astro

De tudo um pouco: sutil ou descaradamente, a Sisley brinca com voyeurismo, dominação, lesbianismo, podolatria, sexo em grupo e nudez. Até de bobes na cabeça


Brasil na moda
Dijon em 1980: a hoje empresária, então no auge da sua carreira de modelo, Luisa Brunet, em uma das muitas campanhas que posava apenas a bordo dos jeans Dijon, sempre acompanhada pelo dono da marca, Humberto Saade

Ensaios de moda de revistas brasileiras nos anos 80 provam a vanguarda da sensualidade, como o editorial da revista Around de 1980, fotografado por J.R. Duran com os modelos Fátima Ribeiro e Paulo Rossani

 
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