Texto Graziela Canella Concepção Andrea Tavares
O destino nas cartas Filho de franceses nascido na Itália, em 1922, Pierre Cardin mudou-se com a família para a França aos dois anos de idade e, aos 14, já ajudava a família como aprendiz de alfaiate, em Saint-Étienne, interior da França. Em 1944, ao ouvir de uma cartomante que seu nome seria um dos mais conhecidos do mundo, não teve dúvidas e partiu de bicicleta rumo a Paris. Estudou arquitetura e, um ano depois, já trabalhava no ateliê de alta costura de Jeanne Paquin.
Nos anos seguintes, passou pelas equipes de estilo de Elsa Schiaparelli e Christian Dior, que ajudou a criar o inesquecível new look. Em 1954, já assinando suas próprias coleções, lançou o que viria a se tornar um de seus ícones – o vestido “bolha”, com saia em forma de tulipa e menos drapeada do que a estilo balonê, do espanhol Balenciaga, lançado na mesma época.
Ainda na década de 50, criou uma boutique feminina com o nome Eve (do francês, “Eva”) e mais tarde a versão masculina, batizada de Adam (do francês, “Adão”) – na qual redefiniu os limites da moda para homens, ao lançar gravatas multicoloridas e camisas estampadas. Inovou ao lançar comercialmente roupas unissex e, em 1959, viajou ao Japão, e foi o primeiro estilista a apostar no potencial de mercado de moda daquele país.
Criador de fantasias Com a criação de figurinos para o cineasta Jean Cocteau e de fantasias para um memorável baile de máscaras em Veneza, Cardin já dava sinais de sua força criativa e chegou a desenvolver vários figurinos para o teatro. Logo se tornou reconhecido pelo estilo de vanguarda e o design futurista, experimentando novas formas e materiais, sem muita preocupação em valorizar as formas do corpo feminino, preferindo partir de linhas geométricas. Até nos óculos, Pierre Cardin apostava em formas quase absurdas, já nos anos 60. Não é à toa que a artista mais controversa do momento quando o assunto é visual, Lady Gaga, é frequentemente vista usando roupas e óculos vintage com a assinatura de Pierre Cardin.
Moda para todos Pierre Cardin nunca foi muito afeito ao caráter de exclusividade e critérios rigorosos de licenciamento, principais apostas da maioria das maisons de moda para atribuir valor e glamour às suas coleções, para despertar, assim, um crescente desejo do público. Deixou isso bem claro já em 1959, quando reproduziu suas criações de alta costura em larga escala para comercialização na loja de departamentos Printemps – antes mesmo de existir o termo e as coleções de prêt-à-porter. Foi um escândalo, que rendeu ao estilista a expulsão por cinco anos da Chambre syndicale de la couture parisienne, órgão que determina as regras e os interesses dos grandes criadores de alta costura no país. Anos mais tarde, Cardin foi até presidente dessa mesma instituição, mas desligou-se definitivamente em 1966, com a certeza de que preferia democratizar sua moda – passou então a promover seus desfiles em um espaço próprio, fora do calendário oficial. Nos anos 80, Pierre Cardin emprestava sua assinatura a mais de 800 contratos de licenciamento de todo tipo de produtos em todo o mundo (um recorde entre marcas de moda até hoje, especula-se). Em 1993, quando lançou uma linha de perfumes, permitiu que fosse comercializada na rede de supermercados Carrefour a preços 30% mais baixos que nas lojas de cosméticos da França.
Nem só de moda Com sua formação em arquitetura e habilidade para imprimir um estilo próprio nos produtos mais variados, Pierre Cardin desenvolveu desde peças de design, móveis e louças até edições limitadas de carros, aviões e barcos, sempre com linhas orgânicas e inspiração futurista.
E sua versatilidade para os negócios não parou por aí: em 1981, Cardin comprou a rede de restaurantes Maxim’s e dois anos mais tarde já tinha inaugurado filiais em Nova Iorque, Londres e Pequim. O nome Maxim’s hoje também está associado a uma rede hoteleira, incluindo o próprio hotel em que hoje mora o estilista, em Paris. Comprou também as ruínas do castelo do Marquês de Sade, em Lacoste, onde já promoveu festivais de música.
Rock com estilo Em 1963, Pierre Cardin assinou mais uma criação que entrou para história – não somente da moda, mas também do rock’n roll: ternos ajustados e com paletó sem lapela. Na verdade, não houve uma ligação direta entre Pierre Cardin e os Beatles, mas o alfaiate responsável pelo figurino do quarteto de Liverpool, Douglas Millings, assumidamente adaptou a criação do estilista francês para o guarda-roupa de George, Paul, John e Ringo. O sucesso foi imenso e a roupa até hoje simboliza o estilo da banda – exibido em filiais da rede temática de restaurantes Hard Rock Cafe e no museu de Liverpool.
Inspiração nas estrelas O primeiro homem a viajar para o espaço, o astronauta russo Yuri Gagarin, em 1961, tornou-se referência para Pierre Cardin. O futurismo e a estética espacial permaneceram presentes no trabalho do estilista, que até chegou a assinar uniformes para a Nasa em 1970. Elementos do espaço e discos voadores também inspiraram o estilista a desenvolver uma linha de relógios para a Jaeger, em 1971.
Chique é ser francês Quando Christian Dior revolucionou o vestuário feminino com seu new look, em 1947, a França – sobretudo Paris – firmou-se de vez como capital mundial da moda. Nas décadas seguintes, ser francês era metade do caminho andado rumo ao sucesso na moda e na alta costura. Assim, não é de admirar que o veneziano Pietro Cardini tenha optado por “afrancesar” seu nome e assinar suas coleções como Pierre Cardin.
Foi seguindo a mesma lógica que o espanhol radicado na França Francisco Rabaneda Cuervo é conhecido como Paco Rabanne, bem como Cristóbal Balenciaga Eizaguirre, também espanhol, optou por nomear sua casa de moda apenas como Balenciaga e passou a “afrancesar” a pronúncia de seu nome, mudando a sílaba tônica de “BalenciÁga” para “BalenciagÁ”.
Aliás, foi ao lado de Paco Rabanne e do francês André Courrèges, que Cardin compôs o trio de estilistas que trouxe a luz os conceitos futuristas na moda no final na segunda metade da década de 60, com trajes metalizados e de linhas geométricas.
No Brasil, de Vila Romana a LVMH Nos anos 80, a Vila Romana detinha o licenciamento para confeccionar linhas masculinas das marcas Dior, Yves Saint Laurent e também Pierre Cardin no Brasil. As coleções tiveram grande popularidade, preços acessíveis e distribuição nacional, o que levou a empresa a bater o recorde de vendas em 1990: US$ 120 milhões.
Entre os fatores que contribuíram para o fim desse período figuram a queda drástica no consumo ocasionada pelo Plano Collor, a abertura das importações e o reposicionamento de marcas decorrente do surgimento do conglomerado LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton), que passou a priorizar a fabricação de produtos no país de origem. O que se viu no mercado brasileiro, dentro de suas particularidades econômicas, foi reflexo das mudanças que ocorreram em todo o mundo, além da gestão baseada no luxo que salvou muitas marcas da falência. Pierre Cardin conseguiu ignorar as regras e, mesmo tendo rescindido o contrato com a Vila Romana, mantém centenas de parcerias de produção em plena atividade no mundo inteiro.
Desfiles e negócios Apesar de sua incontestável importância no mundo da moda, Pierre Cardin nunca fez questão de estar no circuito europeu de lançamentos de coleções e calendários de desfiles. Por outro lado, o fato de ter sido expulso da Chambre syndicale de la couture parisienne no começo da carreira já foi prova de que não seria visto com bons olhos na indústria ao desafiar o elitismo da moda.
Assim, aproveitou essa imposta liberdade e em vez de apresentar suas coleções na semana parisiense, promoveu desfiles em locações no mínimo exóticas, como China e Turquia – e chegou até a passar 15 anos sem realizar desfiles. Em outubro, em meio a inúmeras homenagens pela comemoração dos 60 anos de sua grife, o mestre francês anunciou a intenção de vender seus contratos de licenciamento, com a marca avaliada em € 6 bilhões.
Embora tenha fechado a venda de alguns contratos na China e no Japão, ainda não encontrou compradores que aceitassem suas condições para a maioria de seus negócios – afinal, Cardin deixou claro que não tinha dificuldades financeiras, apenas intenção de finalmente aproveitar a aposentadoria.
Detalhes que fazem diferença A coleção de armações de receituário e óculos solares sob o nome Pierre Cardin no Brasil são fabricadas e comercializadas pelo Grupo Tecnol. Muito diferentes dos modelos excêntricos desenvolvidos pelo estilista nos anos 60, aqui as coleções incluem peças clássicas e elegantes, lançando mão de detalhes únicos para impor o estilo arquitetônico, original e colorido de Pierre Cardin. As coleções vão buscar elementos icônicos da marca na joalheria, na arquitetura e nos tecidos de alta costura para atribuir identidade de marca às peças.
Ícones Vestido “bolha” Terno sem lapela dos Beatles Moda unissex Futurismo Relógios “espaciais” Linhas geométricas Peças com golas e capuzes que cobrem o rosto Invenção do prêt-à-porter
Pronúncia “Pi-É-rre Cár-DÔ. A intimidade da grife com o público local já não oferece tanta dificuldade na pronúncia da marca: Pierre Cardin é um velho conhecido dos brasileiros.
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Muito além das roupas: em foto de 1978, Pierre Cardin e um avião West Wind, um de seus produtos licenciados |
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Loja Pierre Cardin na via Montenapoleone, em Milao, 1969 |
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1967: desfile da grife em Camberra, na Austrália |
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