:: Especial :: Maio de 2010

Especial Concurso de Design
Design de óculos: evolução a olhos vistos

A quinta edição do Prêmio Abióptica VIEW de design de óculos contou com modelos muito mais bem elaborados que os do ano passado e surpresas na premiação.
Texto Sabrina Duran
Fotos Acervo pessoal e Andrea Tavares

Os cinco trabalhos vencedores do Prêmio Abióptica VIEW 2010 de Design de óculos para estudantes de cursos de Design e Moda estarão expostos em um lugar especial na feira. Dois dos ganhadores já são conhecidos do público: Saulo Policarpo, que novamente ficou em primeiro lugar, e Carolina Becattini, que também levou o segundo prêmio, assim como em 2009. “Premiações norteiam e nivelam. É como se dissessem: ‘sim, você está mais ou menos no caminho certo, agora é daqui para cima’”, comentou Policarpo, a respeito do novo primeiro lugar. Carolina Becattini, que mais uma vez apostou no público infantil para desenvolver seu projeto, diz sentir-se lisonjeada por ser escolhida em um concurso de nível nacional e completa: “para um designer, toda premiação é bem-vinda, pois é assim que se dá a divulgação do trabalho de um profissional”.

A etapa final do julgamento ocorreu em 25 de março na sede da Associação brasileira da indústria óptica (Abióptica) e teve como jurados Andrea Tavares (VIEW); Demian Moraru (Evoke), Léo de Souza (Marchon); Ricardo Pinheiro (Press Texto, a assessoria de imprensa da Abióptica); o óptico e colunista da VIEW, Miguel Giannini; a vencedora da segunda edição do concurso Rebeca Ortega; e Valter Tomazzoni (Mormaii).

Em 2010, os organizadores do concurso receberam 32 pranchas, entre armações de receituário e óculos solares. Os trabalhos vieram, principalmente, de estudantes e alunos recém-formados dos cursos de desenho industrial e de produto de universidades de São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

Comparando-se o nível dos concorrentes no ano passado, as criações enviadas para esta edição do prêmio estão mais bem elaboradas do ponto de vista conceitual, estético e de execução do projeto, inclusive no que diz respeito aos estojos, que foram pensados por alguns concorrentes, como o próprio Saulo Policarpo, com a mesma dedicação posta nos óculos. “Os projetos têm melhorado ano a ano. Acredito que, com a continuação do concurso, a divulgação trará cada vez mais candidatos, gerando o aprimoramento dos trabalhos”, afirma o presidente da Associação brasileira da indústria óptica (Abióptica), Bento Alcoforado.

Em entrevista à VIEW, todos os ganhadores do concurso contaram que pesquisaram in loco as necessidades dos usuários para chegar ao melhor conceito do produto. Desde o conforto físico, a resistência dos materiais empregados, passando pela qualidade estética e a praticidade na hora de acondicionar o objeto na caixa, tudo foi pesquisado com base em entrevistas feitas com usuários de óculos, além de buscas de referências em sites de design, museus, livros, artistas, cenas cotidianas, conversas de boteco – e os rabiscos nos guardanapos – e, no caso de Saulo e Carolina, na própria experiência adquirida no concurso anterior.

João Falcão, de Recife, e Tamy Gomes, de Curitiba, formaram a dupla que ganhou o terceiro lugar com os óculos Protecmed, destinado à proteção para profissionais de saúde, com lentes descartáveis. Mariana Ribeiro ficou com o quarto lugar com Sporting Life, solares desenhados para a prática de esportes que se adaptam ao tamanho e ao formato do rosto de cada usuário; Bárbara Silva ficou com o quinto lugar ao apresentar o Shadow Glasses, solares que têm o policarbonato como 99% de sua matéria-prima.

Os prêmios distribuídos foram de R$ 4 mil, R$ 3 mil, R$ 1,5 mil, R$ 1 mil e R$ 500, respectivamente da primeira à quinta colocação. Tão ou mais importante que o prêmio em dinheiro é a exposição, em nível nacional, desses novos talentos. A indústria óptica brasileira, que há cerca de uma década começou a olhar com mais cuidado e a valorizar o design e os designers que surgem dentro de seus próprios quadros, tem, nos ganhadores do Prêmio Abióptica VIEW de design de óculos, profissionais extremamente criativos à espera de um bom desafio. “A Abióptica tem a convicção de que a repetição, a divulgação e o aprimoramento da informação sobre o concurso poderão incitar fabricantes e distribuidores a se interessarem mais pelos participantes. É preciso fazê-los ver – inclusive os distribuidores, que são em maior quantidade –, que podem criar suas próprias coleções. Quanto à indústria, já há manifestações concretas de interesse nos designers, mesmo naqueles que não foram os vencedores dos prêmios, mas que se identificam com o estilo da empresa”, conclui Bento Alcoforado. Confira a seguir a lista de vencedores e um pouco das ideias que deram corpo aos óculos desenvolvidos por eles.


A comissão julgadora de 2010: Miguel Giannini, Andrea Tavares, Demian Moraru, Ricardo Pinheiro, Rebeca Ortega, Valter Tomazzoni e Léo de Souza

Os vencedores
Os campeões explicam a inspiração e como conceituaram suas criações.


1º lugar
Tai (óculos de proteção fashion)
Saulo Policarpo, 31 anos
Belo Horizonte
“Há algum tempo venho estudando hábitos do consumo na sociedade contemporânea e é interessante ver como cada vez mais algumas empresas vêm trabalhando a lógica do produto como objeto de desejo, capaz de se posicionar perante a sociedade por meio de sua representação simbólica emocional.

É assim com os produtos da Apple. Foi daí que partiu a ideia de desenvolver um produto que atendesse a um mercado ainda pouco explorado. Escolhi utilizar um tipo de óculos que poucas pessoas dão valor por se tratar de um equipamento de segurança, normalmente utilizado para o trabalho e que, em princípio, não teria razão de ser bonito e sofisticado. Um engano, pois no ambiente de trabalho, todos são extremamente observados e analisados, é um momenoto alta sociabilidade.

Trata-se de um óculos de proteção fashion, um produto que diz sobre os valores de seu usuário. Atendi à norma norte-americana de segurança ANSI Z87.1, que prevê que as lentes dos óculos de proteção devem ser de policarbonato padrão balístico e certificado de polímeros plásticos, resistente a arranhões, antineblina e com proteção total contra os raios ultravioleta, proteção lateral e amplo campo de visão.

Pode ser usado como óculos de sol, faz parte da estratégia do produto, assim como se usa um relógio de mergulho para o dia-a-dia. O Tai (“formiga”, em tupi guarani) possui charneiras magnéticas com um sistema rotativo que permite uma nova interação física entre o usuário e o produto, além do sistema de ponte frontal removível que facilita a limpeza das lentes. Desenvolvi também embalagem, estojo e manual.”


2º lugar
Cotton Candy Princess (armação de receituário infantil)
Carolina Becattini, 25 anos
Belo Horizonte
“O processo criativo surgiu a partir da necessidade do uso de óculos pelo público infantil. Infelizmente existe uma rejeição por parte das próprias crianças quando a necessidade de usar óculos é diagnosticada. Fiz disso uma oportunidade: transformei os pontos negativos em positivos por meio do conceito de fazer da armação um adorno de cabeça, o que encanta as pequenas usuárias.

O Cotton Candy Princess é inspirado em um laço de fita, que utiliza o universo de tons pastel e a textura aveludada do algodão doce para transmitir delicadeza e doçura às usuárias. Além de sua função original, também poderão ser utilizados como um arco para enfeitar os cabelos das pequenas. Destinados a meninas de cinco a 11 anos.


3º lugar
Protecmed (óculos de proteção para profissionais da área médica)
Tamy Gomes, 20 anos, e João Falcão, 21 anos
Ela de Curitiba e ele de Fortaleza
“Em uma disciplina de projeto de produtos, tivemos de utilizar patentes da universidade para desenvolver um projeto de design. A que ficamos encarregados era a de óculos de proteção para o setor médico-hospitalar. O trabalho começou a partir de conversas com profissionais da área e pesquisas de produtos similares.

Os óculos deveriam ser completamente originais. A combinação de óculos, armação, lentes e hastes quebra facilmente na rotina conturbada de centros hospitalares. Um aspecto decisivo no momento de projetar foi a necessidade de baratear o preço em relação aos produtos já existentes.
Protecmed são óculos de proteção flexíveis, feitos de silicone ajustável e maleável, fáceis de guardar no bolso. Seu mix de produtos e serviços inclui o abastecimento contínuo de dispensers hospitalares, serviço de informação a respeito da necessidade de utilizar óculos de proteção por meio de palestras e folhetos informativos.

Protecmed é abastecido por lentes autofixáveis com adesivo tipo Post-it, descartáveis após uso único. Para estimular seu uso, desenvolvemos estampas personalizadas para diversos tipos de usuários, desde o estudante de enfermagem até o cirurgião sênior, o que aumenta a identificação do usuário com o produto, sentindo-se, assim, mais à vontade para utilizá-lo.


4º lugar
Sporting life (óculos solares para a prática de esportes)
Mariana Ribeiro, 27 anos
Belo Horizonte
“Primeiro desenvolvi a parte prática e tecnológica dos óculos. Pesquisei todos os modelos que pude e percebi que minha atenção deveria ser para as áreas do esporte e lazer. Sporting life foi desenvolvido para atletas que necessitam de segurança e conforto em esportes radicais. A inspiração veio do tapa-olho de piratas e foi ganhando aperfeiçoamentos. Sem ligação central [isto é, ponte], os óculos deixam mais espaço livre para a circulação de ar, gerando mais frescor e segurança ao atleta.

Os óculos atuam como uma pinça, adaptando-se com exatidão ao rosto de quem os usa. Sua haste contínua tem estrutura de aço e mola revestida com neoprene e sistema de travas clicadas, armação lateral de lente injetada em ABS e lentes de policarbonato. Com armação e lentes pretas, faz diferença por conta da ausência da ligação central.


5º lugar
Shadow Glasses (óculos solares)
Bárbara Silva, 25 anos
Belo Horizonte
“Parti do pressuposto de que a ideia original viria de diversos segmentos, tendências e opiniões. Pesquisei entre várias pessoas sobre como seriam os óculos ideais para cada uma delas. Ouvi muitos pontos de vista, estudei tendências e produtos disponíveis no mercado. Foquei no conceito de um modelo solar que fosse o mais leve possível e que ocupasse todos os campos da visão, sem deixar lacunas ou pontos negros.

Hoje, as hastes dos óculos são tratadas como acessórios das lentes. Vi que poderia fazer algo diferente, tornando as hastes um prolongamento das lentes. Nasceu, daí, a ideia do Shadow Glasses, óculos 99% lente, com metal apenas na peça de dobra das hastes [isto é, charneira] e, mesmo assim, o mais distante possível do campo de visão, de modo a permitir o olhar em toda a sua amplitude.

Para definição do desenho final, me inspirei, principalmente, na moda geek (chamada de moda nerd aqui no Brasil), muito difundida nos dias de hoje. O Shadow Glasses é completamente feito com lentes de policarbonato por serem mais leves, fortes e resistentes. Com lentes cinza que cortam a luz sem distorcer as cores, possui proteção contra os raios ultravioleta. E por ser 99% lente e cobrir todo o campo da visão, oferece proteção integral aos olhos do usuário, especialmente para quem tem sensibilidade à luz e é portador de deficiência visual. Desenvolvido como óculos solares, o Shadow Glasses poderá ser adaptados para receituário.

 
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