:: Sucesso :: Setembro de 2004

Mondo Fashion
Yves Saint Laurent

Ao lado de Coco Chanel, Yves Saint Laurent definiu o guarda-roupa da mulher contemporânea. Em mais de quatro décadas de carreira, o maior estilista vivo da história passou de inovador para fonte de inspiração no universo na moda.
Texto Andrea Tavares e Graziela Canella

Um grande nome para um grande gênio
Yves Henri Donat Mathieu Saint Laurent nasceu em 1o de agosto de 1936 em Orã, na Argélia – no final do século 18, sua família deixou a França rumo a essa colônia francesa situada no norte da África. O pai era um bem-sucedido dono de uma cadeia de cinemas, mas foi na elegância da mãe que o estilista encontrou sua inspiração.

Aos 18 anos, mudou-se para Paris e passou a freqüentar a École de la Chambre Syndicate de la Haute Couture (algo como “Escola da Câmara Sindical de Alta Costura”), tradicional escola de moda. Rapidamente, ganhou um concurso e chamou a atenção não apenas do então editor da revista Vogue francesa, Michel de Brunhof, mas também do estilista Christian Dior, que o contratou como assistente.
Da guerra ao topo
Um golpe do destino foi o estímulo para Yves Saint Laurent lançar sua própria marca. Ao ser convocado para servir na guerra da Argélia, em setembro de 1960, foi substituído pelo francês Marc Bohan na maison Dior. Coube ao futuro parceiro e sócio, Pierre Bergé, comunicar a demissão a Saint Laurent, que estava em um leito de hospital, ferido após uma batalha.

Com pouco dinheiro e muito entusiasmo, a dupla abriu sua maison de alta costura e construiu um império sobre os pilares do talento de Saint Laurent e da visão para os negócios de Bergé.

A primeira coleção, lançada em um memorável desfile, em 29 de janeiro de 1962, projetou Yves Saint Laurent como o primeiro estilista cujas iniciais (YSL) tinham significado próprio. A sigla foi rapidamente compreendida como sinônimo de elegância e passou a aparecer nas etiquetas de inúmeros produtos licenciados como perfumes, bolsas e chapéus e óculos.
Legenda:
Primeiros tempos: o criador em seu ateliê durante a concepção de sua primeira coleção com parceiro e sócio Pierre Bergé
De braços dados com a bela
As duas faces
A importância de Yves Saint Laurent também foi reconhecida pelo governo francês ao lançar, em 2000, uma série de moedas comemorativas em homenagem ao criador: de ouro ou prata, são de 500, 50, 10 e 5 francos (sistema monetário do país na época, antes da implantação do euro, a moeda da comunidade européia, em 2002).
Dior e o trapézio
A morte de Dior, em 1957, no auge da carreira, deixou a direção de criação da maison nas mãos do jovem Saint Laurent, o que lhe projetou rapidamente para a fama. Sua primeira coleção, em janeiro de 1958, apresentava o célebre vestido trapézio, que se tornou febre mundial e rendeu a seu criador o prêmio Neiman Marcus daquele ano, concedido às maiores contribuições ao mundo da moda pela renomada cadeia de lojas norte-americana. Para entender o impacto das suas criações já na época, basta observar a manchete de um dos principais jornais de Paris, que estampou na capa “Yves Saint Laurent salvou a França”, em referência à criação do vestido trapézio.
O adeus emocionado

Depois de 40 anos no comando de sua marca própria, mais de 70 coleções de alta costura e 200 desfiles no currículo, Yves Saint Laurent provocou burburinho ao anunciar a sua aposentadoria. Aos 65 anos de idade, com problemas de saúde, o estilista recebeu a imprensa mundial em seu ateliê em 7 de janeiro de 2002 para um discurso emocionado, quando homenageou seu mestre Christian Dior e os ícones Cristóbal Balenciaga e Coco Chanel, além de agradecer amigos, colaboradores, clientes e jornalistas de moda.

Duas semanas depois, Saint Laurent apresentou um desfile de 90 minutos com uma retrospectiva de toda a sua obra e algumas novas criações. Ao final, enquanto sua musa Catherine Deneuve cantava Ma plus belle histoire d’amour, o estilista se despedia em meio a aplausos e lágrimas.

Legenda:
Pop art em 1966: o vestido “nu” de jérsei preto, violeta e rosa mais uma vez na musa Catherine Deneuve
Os herdeiros
Embora tenha vendido a marca, em 1999, para o PPR Group (Pinault-Printemps-Redoute), o terceiro maior conglomerado de marcas de luxo do mundo, presidido pelo francês François Pinault, que também detém a italiana Gucci, e mais tarde abandonado a alta-costura, Saint Laurent nunca escondeu sua desaprovação às coleções prêt-à-porter de sua maison criadas pelo norte-americano Tom Ford, responsável por recriar a Gucci das cinzas na década de 90.

Apesar de reconhecer o talento de Ford, que ficou à frente da Rive Gauche de outubro de 2000 a abril de 2004, Saint Laurent acreditava que a marca havia perdido sua identidade e nem sequer comparecia aos desfiles. As expectativas repousam agora nas mãos do italiano Stefano Pilati, que apresentará sua primeira coleção para a Yves Saint Laurent Rive Gauche em outubro. Saint Laurent acredita que o jovem estilista, que já assinou coleções para a Miu Miu, a linha jovem da Prada, “restabelecerá o diálogo com o consumidor da griffe”.

Legenda:
Desaprovação: campanha da fase Tom Ford para a Yves Saint Laurent Rive Gauche
Le smoking e, quem diria, o jeans
Em uma entrevista à revista inglesa Dazed & Confused, em março de 2003, Saint Laurent revelou que o smoking feminino foi a sua criação favorita, graças à sensualidade e à emoção libertadora que proporcionou às mulheres. Conhecido como “le smoking” e criado em 1966, o look era composto por blusa transparente e calça masculina e representava uma provocação sexual e social, já que, na época, alguns lugares proibiam a presença de mulheres vestindo calças. Na mesma entrevista, questionado se tinha algum arrependimento, o gênio confessou: “lamento não ter inventado o jeans”.
Museu de moda
Em 1986, Saint Laurent foi o primeiro estilista no mundo a exibir seus trabalhos em um museu - o Louvre, em Paris. Esse era apenas o presságio do que estaria por vir: em 2002, a despedida do gênio também marcou a inauguração do único museu no mundo dedicado ao trabalho de um único estilista, a Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent. Distante meia hora do centro da capital francesa, conta com um acervo de 5 mil looks, 2 mil pares de sapatos, mais de 10 mil exemplares de jóias e centenas de chapéus, reunidos desde os tempos de Saint Laurent na maison Dior.
Elegância e ousadia nos óculos
Nas palavras do próprio estilista, a elegância nas criações se deve à sobriedade e à pureza da construção, elementos presentes também nas suas coleções de óculos, reconhecidas pelo design marcante, produzidas e comercializadas pela Safilo.
Ícones
Vestido trapézio, com ombros estreitos e saia evasê em 1958
Vestido Mondrian, inspirado na obra do artista cubista holandês em 1965
O smoking feminino em 1966
A Saharienne, a jaqueta tipo safári, em 1968
Influências étnicas da África e da Índia
A arte como inspiração
Pronúncia
É mais francesa impossível, porém sem muitos mistérios: “Í-ve SÃ Lor-RÂN”.
Frases
“Digo a mim mesmo que criei o guarda-roupa da mulher contemporânea, que participei da transformação de minha época. Eu o fiz com roupas, o que é certamente menos importante do que a música, a arquitetura, a pintura e várias outras artes, mas, seja como for, eu o fiz.”

“Eu conto quase sempre a mesma história. Gosto, acima de tudo, da simplicidade e da beleza do clássico. Mas minha fantasia, meus dotes imaginativos me fazem avançar às vezes até o barroco, o estranho.”
Prêt-à-porter

Prêt-à-porter é a expressão em francês para roupa comprada pronta em lojas, ao contrário de haute couture (alta costura). No Brasil, pode ser traduzida como “pronta-entrega”; já em Portugal, é “pronto-a-vestir”. Vale tanto para peças industrializadas como para artigos feitos à mão.

Legenda:
Colo: com a badalada supermodel francesa Laetitia Casta
Alta costura
Alta costura” é a tradução do termo francês “haute couture”, usado para designar os negócios e a criação de roupas de luxo femininas sob medida. Para ser considerada uma maison de alta costura, a griffe deve integrar a entidade francesa que regulamenta esse tipo de negócio e obedecer a várias regras, como empregar no mínimo 15 pessoas e apresentar pelo menos duas coleções ao ano.

 
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