Texto Andrea Tavares Fotos JAF
Visionário de primeira e apaixonado por tecnologia, o paulistano Fabio Zanchetta tem cerca de 30 anos de mercado e, nesse período, foi o responsável pela introdução de duas importantes tecnologias de lentes oftálmicas no país, o anti-reflexo ainda nos anos 80 e o freeform ou surfaçagem digital em 2003. “Meu olhar é sempre para o futuro”, atesta. Atuando de forma independente com uma empresa de porte médio e administração familiar, conseguiu uma fórmula muito bem-sucedida que combina boas doses de muito trabalho, paixão pela tecnologia, seriedade e apreço extremo pela saúde dos negócios.
Sua trajetória profissional começou aos 15 anos, mais precisamente em 1978, quando, estudante de eletrônica, pediu ao pai que o indicasse para um estágio em um de seus clientes, a quem prestava serviços de contabilidade e advocacia: a Metal Lux, especializada em coloração e metalização de lentes, que o contratou como estagiário por meio salário mínimo. Estudava de manhã e trabalhava à tarde e lá ficou por três anos, pois a empresa mudou-se para Taubaté e os estudos impediram a sua transferência para a cidade do interior paulista.
Na seqüência, foi contratado pela Ialo, na época uma das maiores indústrias de lentes oftálmicas do mundo, de propriedade do italiano Gaetano Constanzo, pioneiro na Zona Franca de Manaus e um dos expoentes da óptica nacional nas décadas de 60 a 80, com 14 empresas no ramo, dentre elas a Lente Color, laboratório de coloração e metalização de lentes onde Fabio foi trabalhar como gerente. Um ano depois, Constanzo o recrutou para a área de pesquisa e desenvolvimento em Manaus, mas, com a venda dos negócios de Constanzo três anos mais tarde para a American Optical, Fabio achou que havia chegado a hora de abrir seu próprio negócio.
Assim nasceu a Cristal Color em 1984, um laboratório de metalização e surfaçagem. Com a morte do pai, dois anos depois, Fabio resolveu dedicar-se apenas à metalização, passando as máquinas de surfaçagem para frente. Lá pelos idos de 1988, recebe o chamado da tecnologia e começa com anti-reflexo, investindo na compra da primeira máquina. Com isso, torna-se pioneiro no país dessa tecnologia que começava apenas a despontar. Mas, além do pioneirismo, a Cristal Color é até hoje um dos mais importantes laboratórios brasileiros de anti-reflexo, com capacidade de produção diária de 3 mil pares de lentes.
Em 2005, mais um passo visionário: o freeform. Havia dois anos que Fabio já namorava essa tecnologia, mas esperou que estivesse mais consolidada a fim de investir com segurança. Por conta disso, a Cristal Color passa a ser o primeiro laboratório da América Latina a contar com a tecnologia freeform em seu portfolio de serviços. Com a chegada da nova tecnologia aos seus domínios, abriu uma segunda empresa, a Free Form Solutions, que concentra toda a fabricação de lentes, como a prestação de serviços de surfaçagem digital para a Carl Zeiss Vision, os seus próprios serviços de freeform, que contam com uma unidade integrada de anti-reflexo, que funciona de forma independente da Cristal Color. Tudo assim, bem separado e independente, para evitar conflitos.
O que começou como mais uma manifestação da paixão pela tecnologia, virou negócio de gente grande. Hoje, a Free Form Solutions opera em escala industrial, conta com três máquinas e produção diária de 600 pares.
Mas antes do freeform, um outro momento importante e mais uma vez inovador: a parceria com a Carl Zeiss Vision - na época, Sola - em 2002, para a produção das lentes anti-reflexo Teflon em um esquema inédito no mundo, o de um laboratório independente prestando serviços, já que em muitos países a empresa conta com unidades próprias de produção de Teflon. A Cristal Color foi a primeira a operar sob esse formato no mundo, um projeto que demandou tempo e muita dedicação, porque exigiu a certificação não apenas da Sola, mas principalmente da Du Pont, a detentora da marca Teflon. A parceria se estende até hoje e recentemente foi estendida com a produção das lentes de surfaçagem digital da Carl Zeiss.
Além da matriz em São Paulo, que conta com 50 funcionários, a Cristal Color tem unidades de surfaçagem e/ou anti-reflexo em Salvador, Rio de Janeiro, Belém e Recife. São, no total, 300 colaboradores.
Você sempre está na frente. Primeiro, foi com o anti-reflexo e, recentemente, com o freeform. O que o move? Eu gosto de desafios sempre e sou fascinado por novas tecnologias, pelas tecnologias do futuro. Tudo que de novo que aparece, eu me interesso. Foi assim com o freeform, eu ouvi falar, fui atrás e resolvi investir.
Apesar de a Cristal Color ser uma empresa pequena, familiar, independente, o objetivo é estar sempre na frente, mesmo não tendo um volume como as grandes, mas sempre na frente. Tudo que ouço falar de tecnologia, eu vou atrás. Com isso, a empresa é a primeira a trazer as novidades para o mercado brasileiro.
E além de você gostar, me parece que tem o faro para achar as coisas… Tenho um perfil técnico, não comercial. Isso me fascina e gosto de ir atrás de tudo que é especial. Tanto que o anti-reflexo da Cristal Color é de primeira linha, com alta clareza e definição. E há coisas novas para 2009, que estou desenvolvendo. Também presto serviço em desenvolvimento de tecnologia para precisão para várias áreas como telecomunicação, militar, e, por conta disso, trago várias coisas para a óptica oftálmica.
Como começou esse seu envolvimento com a tecnologia de precisão? Quando eu trabalhava na Metal Lux, foram vendidos alguns equipamentos para o Centro Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos, e fui escalado para desenvolver os processos para eles e, com isso, aprendi a gostar de tecnologia de precisão. Até hoje, eu faço projetos nessa área.
Sua sede por inovação combina com uma das características do consumidor brasileiro, o gosto por novidades… O brasileiro, por incrível que pareça, é o que mais exige qualidade, sabe o que quer. E, com essa necessidade, há a obrigação de manter a qualidade. Brasileiros gostam e procuram por novidade, sem dúvida.
Comparando a qualidade do tratamento anti-reflexo no Brasil e nos Estados Unidos, aqui é superior. Lá, são permitidas coisas inaceitáveis por aqui como ponto, cores diferentes, se o anti-reflexo solta depois de três ou quatro meses que os óculos foram comprados não há problema, porque o mercado norte-americano é de alto consumo. Já o brasileiro não: é mais conservador, quer qualidade.
Como você vê o avanço do mercado nesses anos? Muito rápido. O Brasil aprendeu a andar rápido, tanto que não está perdendo para ninguém em alta tecnologia de óptica como freeform e anti-reflexo. Não digo que caminhe paralelamente à Europa, Estados Unidos e Japão, mas a defasagem é de um ano, no máximo. Em termos de freeform, por exemplo, o Brasil está na frente dos Estados Unidos.
Como foi começar do zero a implantação de tecnologias como anti-reflexo e freeform no país? O anti-reflexo é um pouco mais simples, porque já existia anti-reflexo há mais tempo no mundo e também já era usado na tecnologia de precisão - em lentes de máquinas fotográficas, por exemplo. Por isso, o anti-reflexo foi absorvido mais facilmente. Já o freeform era muito novo, estava nas mãos das grandes indústrias multinacionais, que tinham suas próprias tecnologias mas completamente fechadas, em que cada um tinha seu desenvolvimento, seus problemas e suas soluções. Só que era tudo interno.
Eu costumo dizer que quando surgiu o equipamento de freeform, quem vendia não sabia o que estava vendendo e quem comprava não sabia o que estava comprando. No começo, passei por várias dificuldades. Foi por isso também que no começo ofereci freeform apenas em São Paulo, porque foi algo que exigiu um grande aprendizado. Hoje, a tecnologia está totalmente dominada pela Cristal Color. Por esse intenso aprendizado do primeiro ano, quem começou no segundo ano já recebeu tudo aprimorado, porque as soluções foram transferidas para o fabricante.
A Cristal Color acabou atuando como um projeto piloto para o fabricante. Foi uma troca de informações e, para eles, de forma independente, porque a maioria das máquinas também estava em outras multinacionais. A Cristal Color foi a terceira empresa independente do mundo a adquirir um equipamento de freeform.
E, por falar em independência, como é ser uma empresa pequena e que atua de forma independente em meio a tantas multinacionais poderosas? Só existe uma resposta para isso: trabalho e dedicação. Só trabalhar e se dedicar para conseguir superar essa condição das multinacionais. Por serem grandes, acabam pecando em alguns fatores e é nesses pontos que a Cristal Color entra e trabalha forte. E por ser grande, a multinacional é lenta e a Cristal Color sempre mantém a qualidade.
Por um lado, é algo meio Davi e Golias… O nome “independente” já diz literalmente. Mas com trabalho e seriedade, é preciso tocar a vida. Os grandes vão querer passar por cima, é natural, mas sempre há uma fatia do mercado que não vão conseguir atingir. Porque o negócio deles é volume e números. E, por outro lado, há muitos clientes que exigem um tratamento especial e que os grandes não conseguem oferecer, porque seu volume de clientes deles é muito superior. E a Cristal Color criou um sistema de qualidade e serviço, em que o cliente não está apenas em busca de preço.
E porque o seu suporte é tão especial? Porque é pessoal. O problema do cliente vai ser entendido e solucionado. É claro que há erros, mas são reparados. Os clientes têm garantia total. Quando chega uma troca, há um procedimento básico de investigar o que ocorreu, porque aquela lente está sendo trocada. É claro que não dá para agradar todos, mas sempre se oferece garantia total e suporte.
Outra coisa importante também é que a empresa é brasileira e o brasileiro tem de acreditar no brasileiro. Devia existir um apoio entre brasileiros, como os europeus fazem. É preciso andar juntos. O brasileiro tem tudo para vencer, é inteligente, versátil e tem tudo para conquistar o mundo.
Hoje em dia, 90% dos seus serviços são de laboratórios, a Cristal Color deixou de atender o varejo diretamente. É mais fácil assim? Até a própria logística pede isso, porque a óptica encomenda o serviço ao laboratório. Foi criada aqui dentro uma ética profissional de não ir direto ao varejo, até por questões de preço e mal entendidos. Ainda ficaram algumas poucas ópticas, aquelas que são clientes desde o início.
Qual o desafio do freeform na óptica? Conscientizar a óptica para a tecnologia do freeform, que é uma cultura diferente, mas é a tecnologia do futuro. É a evolução. Por mais que não se queira entender, será preciso entender, porque vai se tornar uma necessidade de mercado. É como a internet, que mudou tudo. Quem não tem um computador em casa?
A globalização fez as pessoas mudarem e buscarem novidades, o lojista vai ter de se atualizar, porque o consumidor sabe o que quer e como quer. Hoje é um pouco mais difícil convencer um cliente. É a evolução de ambos os lados.
O freeform é uma mudança de paradigma? Com certeza, o consumidor quer saber o que mudou e cabe aos profissionais de óptica explicar o que está ocorrendo. É uma coisa totalmente nova. O resultado final é o mesmo, mas a forma é nova, diferente. É como a mudança da máquina de escrever para o computador.
Voltando um pouco ao começo da sua carreira de empresário do ramo, por que o nome Cristal Color? Algo a ver com cristal? A metalização é feita somente no cristal. E o que a Cristal Color fazia na época era coloração de cristal, que é a metalização. Por isso o nome Cristal Color.
Qual o segredo do seu sucesso? A determinação. Eu trabalho muito e gosto. E tenho uma coisa na cabeça: se quero fazer uma coisa, vou e faço. Esse é o sucesso. Também tem a seriedade, e por isso a empresa é o que é. Tenho amigos em várias partes do mundo e os parceiros somaram muito nisso, como a Zeiss, que me ajudou muito nessa conquista.
Sou independente, a minha única sócia é minha irmã, que cuida do financeiro, e todos os recursos são próprios. Não faço nada que a empresa possa correr risco. Não faço graça, a saúde da empresa é o mais importante e eu pontuo muito isso nas minhas parcerias. É uma empresa familiar e sólida.
Olhos
“O desafio do freeform hoje é conscientizar a óptica para essa tecnologia, que é uma cultura diferente, mas é a tecnologia do futuro. Por mais que não se queira entender, será preciso entender, porque vai se tornar uma necessidade de mercado. É como a internet, que mudou tudo. Quem não tem um computador em casa? A globalização fez as pessoas mudarem e buscarem novidades, o lojista vai ter de se atualizar, porque o consumidor sabe o que quer e como quer. Hoje é um pouco mais difícil convencer um cliente. É a evolução de ambos os lados.”
“O brasileiro tem tudo para vencer, é inteligente, versátil e tem tudo para conquistar o mundo.”
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